Quarta-feira, 21 de Setembro de 2005

ÁGUA LISA

agualisa.JPG

Ando nisto de blogar passa dos dois anos. Primeiro, vesti-me de Bota Acima (num primeiro volume que o blogger brasileiro deu sumiço por falta de assistência, depois alojado neste batráquio e que ainda se pode consultar aqui). Virei então para o desovanço de uma série de Água Lisa que já vai no terceiro capítulo (tarda nada a passar para o quarto por exceder a capacidade de armazenamento de dados concedida a cada rodada) e em que os arquivos das edições anteriores se podem aceder pelos links da coluna à esquerda.

Os títulos dos blogues vieram-me á ideia por impulso de associação. Mas quem nos lê tem direito às suas deduções decifradoras. Até porque quem está por fora nos topa como nós, frente ao espelho, não nos topamos por tanto estarmos viciados no afã de disfarçar (e um blogger, como o poeta dizia de si e dos seus colegas, não passa de um fingidor).

Não tem sido nem um nem dois que se aprazem com o último título aquático do meu bloganço. Talvez o meu “camarada de ex-armas” Luís Graça não seja o último quando por aí entra e sobre ele especula:

“Um título que que só podia ser criado por um poeta ou por um engenheiro químico, como ele. Água Lisa, leia-se: aguardente de cana, cachaça (e, por extensão, “água de Lisboa”, como diriam os nossos queridos “nharros” a quem o Profeta proibiu de tocar na dita água-lisa).”

E o caro Luís Graça, homem de rigor e perspicácia, desta vez confundiu a substância com o complemento. Razão suficiente para servir, guardanapo no braço e em bandeja de amizade, cópia do meu post de abertura desta série e que dá luz de razão ao título adoptado:

------------------------

- Com água lisa !

Estas eram palavras repetidas e ditas alto. Mas diga-se por verdade, que eram mais para escutar um som de vida viva do que para dar força à ordem do rito.

Autêntica chinesice era aquela de escolher entre diluir o álcool com água gasificada ou isenta de borbulhas carbónicas. Cada um sabia que estava a agarrar-se ao acessório. Mas a vida prega-nos destas – vivermos, termos de viver, com aparências para esquecer que o transitório está sempre a ameaçar com a estocada do ponto final. Ali, tinha de ser assim.

Por norma, o Cabo da Messe sabia como se rir, sem se notar, da nossa ansiedade fardada e com galões nos ombros carregados a albardar tristezas e vontades de zarpar. Ele olhava os nossos medos mesmo no centro dos nossos olhos milicianos e repetia, navegando as palavras até desaguar na sobriedade sisuda própria de um subalterno:

- Com água lisa !

A água vinha. O álcool também. E os olhos iam ficando cada vez mais pequeninos. Talvez fugindo do gozo do Cabo da Messe. Talvez tudo. Talvez nada. Porque, verdade mesmo, escolher água lisa era das poucas escolhas que restavam para espevitar o andar trôpego da espera.
publicado por João Tunes às 20:23
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3 comentários:
De Helena a 23 de Setembro de 2005 às 13:06
João, ainda bem que não tenho meios para entender este seu post! Mas digo-lhe já que gosto bem de ir ficando por aqui com água lisa...


De Joo a 22 de Setembro de 2005 às 22:38
Helena, apesar da sua evidente boa-vontade simpática, acho que não apanhou. E ainda bem porque não foi "guerreira". Se tivesse estado na guerra à força, perceberia a subtileza metafórica, talvez mal conseguida, do esperar que os dias passem, riscando-os no calendário, numa espera que não se pode acelerar nem escolher para além do inútil e do ridículo. O alcool é sempre circunstãncia, nunca motivo. é esse também parte do meu estar quando blogo - porque raio estou aqui? E, depois, ir ficando. Abraço.


De Helena a 22 de Setembro de 2005 às 16:26
O "Bota Acima" foi um dos primeiros blogues portugueses que descobri. Chamou-me logo a atenção pelo que havia de especial no nome: uma mensagem positiva, quase teimosa e isolada, num país que sistematicamente "bota abaixo".
A "Água Lisa" associava serenidade, paz - tudo menos alcool. Mas agora percebo a escolha do nome: limita-se a acompanhar o fervilhar quente das ideias!


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