Quarta-feira, 21 de Setembro de 2005

TERCEIRO VOLUME A CAMINHO

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Não aprecio a obra historiográfica de José Pacheco Pereira tão pouco como a sua intervenção político-partidária. A esta não lhe tenho grande estima, não por ser do PSD, mas porque julgo que assenta permanentemente num jogo de sofismas, em que ele defende qualquer coisa como, se for caso disso, o seu contrário. Quanto ao seu estudo sistemático sobre o "comunismo", reconheço que, de longe, ele se tornou no seu maior especialista e fonte de dados, cronologia e sistematização. No seu trabalho, o principal mérito de JPP vem do contraponto ao secretismo do PCP sobre a sua própria história (em que só deixam sair, a conta gotas, as secreções das lendas), segundo por um gosto pela finta imaginativa do próprio JPP que, procurando saber o mais possível, se perante dados objectivos procura ser objectivo, não tem problema em “inventar” (melhor, deduzir) quando se depara com "manchas negras" de história escondida. Finalmente, porque JPP é um leitor compulsivo, um trabalhador infatigável e um indomável na gestão da vontade de saber e mostrar o que sabe.

Sobre o PCP e Cunhal, além de JPP, quase só se venderam lendas para consumo de crentes e ingénuos. Vá lá, 10% de factos e 90% de iconografia de figuras. E são demasiadas as figuras e os factos tratados “à Iejov” (apagados ou metidos em gavetas). Mas, sobretudo, uma figura com a dimensão de Cunhal (e ele é indiscutivelmente uma das mais fulgurantes e marcantes do nosso século XX) não merece ser embalsamada na gratidão da santidade pela sua inteligência, cultura, valentia e martírio. Meter Cunhal num Mausoléu de veneração é diminui-lo, retirando-lhe dimensão humana. Porque, olhando pelo lado do equilíbrio do prisma humano, um asceta redentor só o consegue ser se tiver habitado com uma componente simétrica ou por lá rondando (não há ser humano que aguente ser 100% de virtude). JPP fez o melhor levantamento conhecido da obra do PCP/Cunhal. Devemos-lhe isso (tanto mais que o tratou com o respeito que lhe é devido, nomeadamente quanto à sua vida privada). Havendo lenda (muita) na (pouca) história oficial do PCP, também haverá alguma lenda na obra do JPP (nomeadamente, imprecisões e desfoques no tratamento de algumas figuras marcantes da vida do PCP). Mas isso era inevitável face ao truque (e má consciência!) de se guardarem os arquivos do PCP a sete chaves, não lhes permitindo acesso por parte de historiadores independentes e nem sequer os seus historiadores"oficiais" conseguirem desembrulhar-se e deitar cá para fora um trabalho que dê para duas horas de leitura. A que acresce, dramaticamente, o silêncio endogâmico vivido por muitas personagens relevantes da história do PCP e ainda vivos, cumprindo voluntariamente com o passado comunista um estiolante pacto de silêncio. Assim, por culpa do PCP e dos "comunistas notáveis", o mais que se conhece sobre a história do PCP e a trajectória política de Cunhal, lê-se em JPP ou nada se lê. Pois que, a menos que a vontade do conhecimento de Cunhal e do PCP seja um mero pretexto para ir ao próximo comício gritar "assim se vê a força do pêcê" e "Cunhal amigo, o povo está contigo", a aproximação ao que foi e é o PCP, quem foi (politicamente) Cunhal, a fonte é quase (infelizmente) única - ler os volumes da biografia de Cunhal feita pelo JPP.

Quanto ao conhecimento abrangente e criterioso (segundo os padrões da deontologia académica) esse tem de esperar que os historiadores tenham acesso aos arquivos do PCP e sobre eles façam os seus trabalhos (como já acontece com os arquivos do PCF e do PCI, parecendo que o mesmo iria acontecer com os do PCUS mas ao que Putin ordenou marcha-atrás, ele lá saberá porquê mas que se adivinha se nos lembrarmos que foi Coronel da KGB).

Sabe-se agora que o terceiro volume da Biografia de Cunhal, da autoria de José Pacheco Pereira, estará nas livrarias em Novembro próximo. Pela minha parte, já fui buscar o saco-cama e meti-me na fila.
publicado por João Tunes às 20:18
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