Terça-feira, 20 de Setembro de 2005

LENÇOL DE CIMA E LENÇOL DE BAIXO

mulatas-1.jpg

Gilberto Freyre (sociólogo brasileiro) foi autor da famosa tese do “luso-tropicalismo” em que se tentava demonstrar que a presença de Portugal em África e no Brasil, era uma forma de estar diferente da do domínio colonial. Usava como paradigma da sua teoria o facto de nenhum outro povo, como o português, ter adoptado o desinibido relacionamento sexual com as populações africanas e americanas (dito de outra forma – o que viesse à rede era peixe). Assim, a produção abundante de mestiços descendentes de portugueses seria a prova de que estes não só não eram racistas como se igualavam com qualquer outro povo na alcova, o que demonstraria a sua apetência por sentimentos igualitários em vez dos de tendência para a posse ou domínio. E dessa natureza e cultura mestiças resultariam uma nova maneira de estar no mundo (numa quimérica identidade e afirmação crioula) que superariam a dicotomia branco-negro (que o mesmo seria dizer: colonialista/colonizado).

Gilberto Freyre nunca mostrou foi estatísticas comparativas sobre o número de mestiços (ou mulatos) provenientes de ligações branco-negra e negro-branca. Ou como é que as “sociedades luso-tropicais”, enquanto sob soberania portuguesa, tratariam as mulheres brancas que tivessem o gosto de se apaixonarem por um negro e se atrevessem a com ele namorar ou casar. Nem sequer reconheceu que a grande maioria dos nascimentos de mestiços (resultantes de um par branco-negra) provieram de relações extra-conjugais.

O certo é que as falácias de Gilberto Freyre foram um dos restritos suportes ideológicos importados que serviram à propaganda colonial de Salazar. E enquanto o fascismo-colonialismo português usava o embuste do “luso-tropicalismo” para a afirmação da sua “diferença”, face aos colonialismos assumidamente racistas ou descriminantes, como, por exemplo, o “apartheid” da África do Sul (o que era uma primeira hipocrisia pois a “cultura sul-africana”, nomeadamente quanto ao tratamento dado aos negros, marcava mais Moçambique que a cultura portuguesa), praticava uma forte aliança económico-político-militar (segunda hipocrisia) com os afrikanders segregacionistas.
publicado por João Tunes às 23:13
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6 comentários:
De Joo a 23 de Setembro de 2005 às 11:54
Uff! Assim, Lenine pode continuar mais descansado no descanso do seu mausoléu... Josué de Castro é outra loiça!


De C.Indico a 23 de Setembro de 2005 às 10:12
GRANDE BRONCA. É que dá um Impulsivo estar em simultãneo a atender ao telemóvel idiotas e a Comentar em lugares sérios.Refereria-me a Josué de Castro (Geopolitica da Fome, O Ciclo do Carangueijo).
Sou uma diarista seu.
Boas continuações.
C. Indico


De Joo a 22 de Setembro de 2005 às 22:43
Comungo com a Helena esta sensação que a pouca atenção em nos sabermos e revelarmos contribui para a amnésia. E dela se aproveitam, volta e meia, os que fazem da barrela seu mister. Que cada um, do que sabe, não deixe que se esqueça..


De Helena a 22 de Setembro de 2005 às 16:38
Quantos portugueses acreditarão ainda que "nós" somos um povo especial, bem diferente dos outros, e que nós éramos simpáticos e amados por todos, bem ao contrário dos espanhóis, por exemplo, que eram uns criminosos selvagens sanguinários? Se penso no que aprendi nos bancos da escola (na realidade, até antes: já no jardim infantil brincávamos aos bons e aos maus - os bons eram os cristãos, os maus eram os mouros...), dá-me um arrepio. // Quantos exemplares do "Livro Negro dos Descobrimentos" foram vendidos, quantos estudos semelhantes foram editados em Portugal depois do 25 de Abril?


De Joo a 22 de Setembro de 2005 às 16:05
Quem? Gilberto Freyre ou Salazar? Confesso que disso nada sabia e acho que é um dado interessante. Esclareça-me sff.


De C.Indico a 22 de Setembro de 2005 às 15:16
E recebeu a Medalha LENINE, da URSS!!!


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