Terça-feira, 20 de Setembro de 2005

UMA FOTO ROUBADA

saudacao9087546.jpg

Já perdi momentos longos a fruir esta foto do Jorge Neto (uma entre as muitas magníficas imagens que ele tão bem sabe fixar) e que nos traz a alegria transbordante de crianças da Guiné-Bissau.

Mirando a foto, e passada a emoção que sempre dá a alegria de catraiada seja de que banda for, ponho-me a pensar como é possível esta limpidez eufórica de vontade alegre de viver, ficando no retrato, por parte de quem nasceu no meio da falta de quase tudo e rodeada de cicatrizes de maldades insanas de outros e dos seus.

Bem sei que a tradição da cultura africana contempla dança e canto no “ronco” e no “choro”, fazendo dela uma vontade optimista de lidar com a vida e a morte, a felicidade e o infortúnio. E, não fosse isso, não sei o que seria. Mas, explicará isso tudo, inclusive esta alegria quase profana face à tragédia africana?

Há qualquer coisa de profundo, histórica e culturalmente, na alegria das crianças africanas. E de acusador, na medida do seu absurdo. Porque é um paradoxo que nos remexe a forma como nós, os “ricos e “abusadores”, lidámos e lidamos com África. É também uma vingança de vitalidade na medida em que paga malfeitorias com olhos abertos, limpos e vivos. E assim nos demonstra que, lá estivemos, lá dominámos, lá nos amanhámos, lá fizemos guerras, esbulhámos e destruímos, querendo continuar a esbulhar, a praticar caridade redentora e a cooperar desde que bem pagos, mas não conseguimos sequer apagar os olhos das crianças que nos acusam através de risos.

Passámos séculos a fugirmos da míngua daqui para enriquecermos lá. Parámos os africanos, reduzindo-os ao nível da brutalidade máxima. Andámos com eles metidos nos porões negreiros a vendê-los para fazer a Europa e as Américas. Espetámos nas suas terras paus com a nossa bandeira. Fornicámos que nos fartámos, espalhando mestiços. Gozámos privilégios de brancos de que guardamos as saudades das praias, dos liceus, dos clubes brancos, dos cinemas para brancos, dos passeios para brancos, das pastelarias para brancos, das avenidas largas e compridas, do calor húmido que esquenta o sangue, dos bailes com corpos colados, do pôr-do-sol, das zebras, dos rinocerontes, dos imbondeiros, das acácias, dos jacarandás, da bolanha, das bajudas, dos régulos e cipaios patuscos, do artesanato, dos jacarés, das ostras e camarões, esquecendo sempre os pretos na terra dos pretos ou olhando-os de dentro de quartéis ou de cima para baixo num encontro de rua ou na contratação de criadagem. Nas poucas escolas, obrigámos a que eles decorassem os nomes dos rios portugueses, das nossas montanhas e dos nossos caminhos-de-ferro mas nunca deixámos que eles dominassem a língua dos seus avós. Respondemos com metralha quando eles nos gritaram que todo o domínio tem prazo. Fomos sádicos, matando-os sob pretexto que eles eram portugueses do Portugal do Minho a Timor. Em vez de arados e livros, oferecemos crucifixos, balas de G3 e “aldeias reordenadas” para melhor os termos debaixo de olho. Deixámo-los, enfim, constituírem-se em autónomos com países feitos em merda, sem quadros, elites ou classes médias. Continuamos a chorar os bens “espoliados”, os “crimes da descolonização”, a abastança perdida, os quartéis abandonados, as estradas esburacadas, a bandeira arreada, mais o preço que pagámos para se amealhar um punhado de “cruzes de guerra” e de “torres e espada” através de tantos corpos e almas de brancos fardados que foram para o galheiro. Mas não conseguimos apagar os olhos das crianças que nos acusam através de risos.
publicado por João Tunes às 16:25
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4 comentários:
De Joo a 22 de Setembro de 2005 às 22:46
Pois, Carlos, lendo o teu comentário à tua transcrição parcial deste post no "Xicuembo" está muita dor com raiva e vergonha. O que disso acho, lá o disse. Abraço.


De Carlos Gil a 22 de Setembro de 2005 às 01:44
Na transcrição do parágrafo fundamental deste post, que linkei, suprimi a frase final. Até porque o espírito do texto não fica amputado, e as palavras mantêm a força original. Mas desde que o fiz que me interrogo do porquê, e num comnetário a Th, da 'Sebenta', fez-me não adiar a leitura do seu porquê. Porque separei as crianças, o que em mim me fez reagir assim. E, lá nos comentários e dirigido ao João e à Theo, conto o que acho do porquê, como estou a lê-lo pois a reação também me tem intrigado - mínimo.
E acho que aqui, donde linkei, é correcto deixar a pista de que já me tentei entender, explicar.


De vitor a 21 de Setembro de 2005 às 19:11
Parabens pelo post . Sabe do que escreve. De experiência vivida e não só . Tambem me recordarei, sempre .
Melhores cumprimentos .


De Carlos Gil a 21 de Setembro de 2005 às 00:49
Embora bastante tenhamos hoje e-mailado acerca deste post, quero aqui dizer publicamente alguma coisa. Ou pelo menos repetir-me, excluída a 'outra' parte. E vou tentar fazê-lo numa única frase:
O espírito colonial portuguªes continua bem vivo, seja por via enviezada e ressabiada nas manifs racistas contra 'os pretos' que por aqui se sucedem, seja pela postura e animus dos emigrantes que para as ex-colónias marcham, cujo comportamento e mentalidade me fez ganhar uma alcunha que nunca tive enquanto colono: tuga; que é dita em sentido claramente pejorativo mas, conhecendo bastantes dos espécimes que a fizeram surgir, é plenamente apropriada.
E, as crianças... sim, há as crianças, há olhos que sorriem por serem crianças, mas haverá um dia olhos adultos no seu lugar. Que já não sorrirão, outros roubos roubaram-lhes e roubarão a doçura no olhar.
Parabéns pelo post, mais uma vez.


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