Domingo, 18 de Setembro de 2005

MULHER AFRICANA

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"Fala de Áurea:

- A mulher africana, coitada! Ela é mãe de uma dúzia de filhos, sem contar com os que não sobrevivem à nascença e durante a gestação. Desde o despontar da idade para procriar até ao seu término, vai parindo incessantemente sem obedecer aos intervalos razoáveis de nascimentos. Esta situação provoca um desgaste psicofisiológico permanente. Todo esse enxame de filhos cresce nas suas costas e alimenta-se do seu seio. Na maioria dos casos, os filhos não têm o mesmo pai. São filhos de cada um dos homens com quem se vai casando ao longo da idade fértil. Ela é obrigada a casar ainda muito jovem pelo pai, que lhe arranja um marido púbere, adulto ou velho, sem que a jovem participe na escolha. As jovens dos meios urbanos, que se julgam emancipadas das estúpidas influências do pai nas decisões matrimoniais, engravidam ainda na idade do ensino básico com os colegas da escola e têm de carregar o peso e as consequências desta situação pelo resto da vida. A família não dá aos jovens educação para o amor.

Olhando para a mulher, constatamos que ela trabalha em casa, confeccionando a comida para o marido, os filhos e as demais pessoas que a frequentam. Cultiva os campos, semeia, sacha, colhe e carrega à cabeça os produtos agrícolas. Anda pelo mato à procura de lenha, junta-a em molho de, pelo menos, 50 quilogramas e leva-o para casa. Quando não tem água canalizada em casa, vai buscá-la ao fontanário, numa lata que traz à cabeça ou num barril que vai empurrando até chegar a casa. Feita a comida, põe a mesa para toda a gente comer. Tira a loiça da mesa e lava-a sozinha. Desde o nascer até ao pôr do sol está constantemente de pé e a trabalhar; anda de um lado para o outro, mexendo isto e aquilo, enxotando as galinhas, os porcos ou as cabras que ali estão, à solta, a comer a farinha de milho pilado, gritando pelo filho de sete meses que, naquela sua descoberta de gatinhar, se dirigiu para o pote de água e entornou o líquido precioso que a mãe acabara de pôr a refrescar. Todo esse trabalho é executado, muitas vezes, com um bebé amarrado às costas. Ela descansa somente à noite, depois de servir tudo ao marido.

A par desta vida esgotante, a mulher sofre no espírito e na carne os maus tratos do marido. Sempre que o homem chega a casa embriagado, e isto acontece quase todos os dias, ela reza aos deuses que a protejam da machadada ou catanada na cabeça. Passa o tempo em que o sono ainda não se apoderou do seu “senhor” apavorada. O marido chama-lhe nomes e bate-lhe. Mesmo assim, a mulher cuida dele. Quando ele adormece no lugar onde estava sentado, ela levanta-se, dá o bebé que traz ao colo à filha de dois anos para segurá-lo, carrega o marido e vai deitá-lo na cama, onde ele fica a dormir sossegadamente.

Quando a mulher consegue arranjar trabalho fora de casa, desempenha, em regra, as funções de empregada de limpeza, porque as suas habilitações literárias não lhe permitem fazer outra coisa.

A sociedade africana vê a mulher como uma escrava de quem o “senhor”, dito marido, tudo espera. Embora seja a mulher quem mais trabalha no lar, que cuida e educa os filhos, a sociedade não lhe reconhece m lugar de destaque pelos seus préstimos para a manutenção da família. Ela tem um estatuto social negativo e um papel não reconhecido. Perante este conspecto da dignidade da mulher, urge perguntar: que resta dela? Nada, nem corpo nem alma.

Fala do “doutor”:

- Os pais são a alavanca das mudanças de atitude dos homens perante a vida nos seus múltiplos aspectos. A educação e formação começam na família e a mulher é a principal dinamizadora de qualquer mudança de mentalidade na sociedade. Ela tem o privilégio de acompanhar mais de perto o crescimento dos filhos, transmitindo-lhes a sua visão do mundo e o seu modo de estar com os outros. Assiste-se hoje à emancipação da mulher face às amarras reles da tradição. Ela está a evoluir mais rápido que o homem. O que significa que quem tem servido de travão às mutações socio-culturais é peremptoriamente o homem; o que faz pena, porque a África precisa de deixar cair certos usos e costumes para ascender ao nível da modernidade. Refiro-me, por exemplo, a todo o comportamento ditado por orientações de feitiçaria e de curandeirice obscurantista. A atitude do africano face à natureza e a si próprio deve pautar-se pelos critérios da simples razão ou da razão iluminada pela fé para os religiosos. As crendices constituem o muro difícil de transpor para o africano passar a trilhar o caminho do progresso técnico-científico e a adoptar uma atitude filosófica, reflexiva, perante a existência. A mulher é a esperança dos novos tempos, que só emergirão com a reformulação dos conteúdos e métodos de educação e formação das crianças."


As passagens transcritas foram retiradas de um pequeno-grande livro que me surpreendeu (*). Foi-me ontem amavelmente oferecido pelo seu Autor, com uma gentileza recheada de modéstia. Conhecer e conversar com o moçambicano Manuel Matsinhe já foi um privilégio, vir com o seu livro no bolso representou, depois, a oportunidade de continuar a “conversar” (aprendendo muito) com ele. Não falo na iniciativa que me proporcionou conhecer Manuel Matsinhe e outros muito ilustres “africanos com duas pátrias”, porque quero deixar isso para o ilustríssimo escritor e que me faz o favor de ser meu amigo, o Carlos Gil, que lá botou brilhante e comovente faladura, cumprindo as suas obrigações perante a fama devida ao seu sucesso literário, num colóquio sobre “Migrações” realizado ontem no Centro Comunitário da Quinta do Conde (Sesimbra). Por lá estive e muito aprendi e senti, cumprindo com zelo uma nova função que me foi atribuída e que desempenho com todo o gosto – membro da claque de admiradores, género clube de fans, do ilustre Xicuembo que, diga-se, não perde aquele seu ar espantado de sempre de quem acabou de chegar das lezírias e não sabe onde se apanha o comboio para Maputo.

(*) – “Reflexões de África – Perspectivas”, Manuel Matsinhe, Quod Editor.
OBS: Trata-se de um pequeno livro de reflexões profundas e sem tabus, apresentadas sob a forma de diálogos entre um professor e alunos, todos africanos mas com diferentes ângulos de percepção, em que se ajudam a equacionar diversas temáticas da problemática africana. Para os interessados em África e nos destinos africanos, um livro a não perder a leitura.

Imagem: Copiada do Jorge Neto, um companheiro de bloganço cuja ligação, notícias e amor crítico à Guiné-Bissau me fez abjurar o juramento que há muitos anos fiz a mim próprio de não voltar a pôr os pés naquele torrão com tanto sortilégio como benção e tão má sorte como maldição.
publicado por João Tunes às 22:35
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2 comentários:
De Joo a 22 de Setembro de 2005 às 22:50
Eu vi-te e senti-te. A ti e a tanta gente de talento e emoção. Gostei mesmo muito.


De Carlos a 19 de Setembro de 2005 às 15:39
Foi tão belo o momento... rever amigos, conhecer outros que mostraram merecer igual nome. Acima de tudo ouvir para pensar, pensar melhor...
Os amigos não dizem 'obrigado', abraçam-se e usam as palavras em algo superior e de que a amizade carece. Tu estiveste lá - eu vi-te.


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