Quarta-feira, 14 de Setembro de 2005

WEIMAR À PORTUGUESA?

Militares.jpg

Independentemente da natureza e justeza das reivindicações dos militares descontentes e da apreciação que se faça à forma como o governo e as chefias militares estão a lidar com a corporação castrense, o que ressalta dos acontecimentos de ontem e das promessas anunciadas para os seus novos capítulos, é deveras inquietante.

Um País com militares em insubordinação pública, sob o pretexto da defesa dos seus interesses sócio-profissionais, é não só uma demonstração extrema da fragilidade do Estado como levanta perplexidades sobre o baixo nível de garantia do exercício da autoridade e a capacidade de a subverter a partir de dentro do seu próprio núcleo de garantia. Ora, uma situação destas só pode ser própria de uma situação pré-revolucionária ou quando se testam as fragilidades democráticas no sentido de incapacitar o regime a auto-reformar-se, o que significa não poder governar. Já disso nos tínhamos aproximado com as movimentações policiais (de que se anunciam novas vagas), mas quando o novelo de turbulência penetra dentro das Forças Armadas, então o sinal só pode ser alarmante.

Pelas imagens publicitadas dos militares manifestantes, parece verificar-se que o grosso da coluna reivindicativa é constituído por uma faixa etária madura, possivelmente a menos preparada para perder regalias, mas também a que resulta da segregação burocrática das partes militares menos adaptadas ao processo de modernização das Forças Armadas. Ou sejam, as camadas que, pelo arrastamento do processo de renovação quarteleira, adquiriram mais consciência de corpo como “funcionários públicos” do que como integrantes de uma força militar profissionalizada, operacional e integrando a cadeia de comando ou a ela se subordinando. A ser assim, o protelamento ou dificultação das passagens às situações de reserva e de reforma acabam por ter um efeito perverso – em vez da renovação etária e de atitude dos militares no activo, vai-se acumular nos quartéis uma massa excitada de militares incapazes de se desburocratizarem e cumprirem as suas missões num quadro de desempenho com desafios para o que falta motivação e preparação.

Obviamente que só os muito ingénuos não lêem neste tipo de movimentações, quer a marca de uma certa tradição “revolucionária” que terá deixado alguma herança entre os militares, como o dedo de uma manipulação (e condução) sindical e partidária para potenciar e explorar os descontentamentos na via da descredibilização governamental e da autoridade das chefias militares, sinalizando, perante a sociedade, a impotência do Estado. Num caso e noutro, sinais de que o corpo militar continua preso de uma natureza híbrida e contraditória entre os impulsos para a modernização e profissionalização e as resistências corporativo-burocráticas. Demonstrando também que as “forças revolucionárias” não dormem nem brincam em serviço e que não desaprenderam acerca da importância de penetrarem e instrumentalizarem o sector militar, condição de sucesso para qualquer mudança de regime. Para além de que, criada uma dinâmica insurreccional, a imaginação de desafio tende a desenvolver-se como mostra o anúncio de que as próximas manifestações serão convocadas pelas “esposas dos militares”.

O teste é sério. Não julgo que a situação o seja menos. Muito vai depender, não só da forma como o Ministro da Defesa e as chefias militares vão dar volta ao texto, mas também da reacção da sociedade (nomeadamente, se vai acarinhar ou ficar passiva face à desbunda revolucionária de militares e polícias) e das camadas militares que não perderam o profissionalismo, a compostura e o respeito pela cadeia de comando. A juntar ao ramalhete, temos as "promessas" de juízes e funcionários judiciais, funcionários públicos e forças de segurança. Outra vez, sem que a memória dê sabedoria, o fantasma da "República de Weimar" e do resultado da política "classe contra classe" do DKP?
publicado por João Tunes às 15:05
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2 comentários:
De Joo a 15 de Setembro de 2005 às 18:18
???


De Carlos a 15 de Setembro de 2005 às 13:28
a CE nunca permitirá 'aventuras' militares...


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