Terça-feira, 30 de Agosto de 2005

A PERSISTÊNCIA DO EXPEDIENTE KRUTCHOV (1)

Kruschphone[1].jpg

Uma certa áurea, condescendente historica e politicamente, resguarda Krutchov na escolha entre os “bons” e os “maus” dos Senhores do Kremlin (excepto, principalmente, os que vêm nele a origem de todos os males, atribuindo-lhe o início dos “desvios” e da “decadência” para com a tradição estalinista da firmeza pura, dura e assassina e que iniciaram a contaminação do PCUS a partir do seu máximo escalão de mando). O resguardo de Krutchov é notoriamente evidente entre os persistentes admiradores de Gorbi (o feiticeiro incompetente) e que colocam este na galeria de um seu “continuador atrasado”. Afinal, a mesma áurea relativizante que, em contraponto a Brejnev e ao medíocre Tchernenko (considerados os “recuperadores ortodoxos”), descortina um “projecto” descontínuo de pretensa regeneração, humanização, racionalização e até democratização da URSS, nas obras da mítica trindade simpática constituída por Krutchov-Andropov-Gorbatchov (os da “obra boa mas interrompida e inacabada”).

Krutchov deu o seu golpe (um golpe clássico e com todos os matadores – com o apoio dos militares então subordinados ao conspirador Jukov, pistolas metidas nas pastas de documentos na reunião do Politburo em que Beria tentou tomar o poder e acabou nas masmorras da “sua” Lubianka, depois pelo fuzilamento secreto e sem julgamento público do mesmo Béria) e legitimou-o no célebre XX Congresso de 1956. Aí, surpreendendo o mundo e metendo os comunistas em estado de choque, encontrou os bodes expiatórios do falhanço na construção do socialismo e da malvadez assassina que eram, já então, as marcas genéticas do poder soviético, em Estaline (falecido em 1953) e em Béria (o último polícia-mor de Estaline e rival de Krutchov na sucessão no mando supremo do PCUS e da URSS).

Com Krutchov e o seu XX Congresso, o antes idolatrado Estaline passou a “besta negra” do comunismo (o homem de todos os crimes e todas as malfeitorias). Estaline passou a Vilão Mor, o Estalinismo transformou-se na expressão máxima da degenerescência paranóica do poder soviético. Depois, afastados do palco os aliados do golpe (Jukov, Molotov, Malenkov, etc.), o Estalinismo ficou consagrado como a mancha negra de uma temporal perversão soviética (ideologicamente sustentado pelo apregoado regresso á pureza do leninismo, ou seja, exactamente a mesma alavanca propagandística que iria suportar a primeira fase da renovação gorbatchoviana) e a prática do consulado de Krutchov como a regeneração do Partido e do Sistema. O que não deixou de ser um espanto de maquiavelismo quando Krutchov, ele mesmo, foi, em grande parte do mando de Estaline, um dos mais boçais, criminosos e sabujos executantes da política do “Pai dos Povos”, nomeadamente na repressão e dizimação dos seus patrícios ucranianos. O mal comunista passou a ter um limite temporal e datado, degenerado mas segregável e superável – o do consulado do poder ditatorial de Estaline. Morto e repudiado Estaline (e, com ele, o Estalinismo, enquanto praxis exclusivamente associada ao exercício de uma tirania específica e paranóica por Um Tirano, entretanto exorcizado), o ideal e a ilusão comunista estavam prontas para regressarem à pureza dos bons e generosos ideais e projectos.

Com Krutchov - que viria depois a ser a “besta negra” justificativa da “rectificação brejneviana” (*) e o ódio de estimação nos desvarios psicóticos dos maoístas, albaneses e polpotianos (recusando-se a limparem as mãos do sangue) e que viram nele o Sumo Revisionista - ao concentrar-se o odioso comunista (sobretudo a sua componente totalitária e criminal) em Estaline e no Estalinismo, ofereceu-se uma nova palavra para a retórica regenedora de afirmação simétrica nas referências ao tronco do leninismo e aos seus ramos, folhas, flores e frutos.

Pela distinção semântica entre Comunismo e Estalinismo, passou a haver duas etiquetas diferentes (aparentemente em conflito) para o Comunismo – o Comunismo Mau (=Estalinismo) e o Comunismo Bom (os que conseguissem sacudir as mãos da obra de Estaline, assobiando ou não para o lado). Vistas bem as coisas, Krutchov acabou por confluir com o velho sonho da propaganda trotsquista – concentrar o odioso soviético em Estaline (sabendo-se tão bem que Trotski faria diferente do mesmo), regenerar o legado leninista e o mito da Revolução de Outubro. O certo é que é depois do XX Congresso que o trotsquismo se relança entre parte da juventude europeia e os focos de atracção radicalistas e dissonantes nos costumes, embora mantendo a sua matriz grupuscular e a tendência fatal para as cisões e as recomposições perpétuas e que são a sua marca degenerativa que o incapacita para criar consistentemente um Partido expressivo e perene onde quer que seja. O que demonstra que o mais significante no trotsquismo, enquanto expressão partidária, é ser um estalinismo incompetente.

A partir do lançamento propagandístico do Mal Estalinista, exceptuando os cultores da provocação e da excentricidade, associado que foi a taras não descartáveis, ninguém quis continuar a ser estalinista, passando este chavão a ser considerado um insulto. A vergonha substituíu o orgulho, no caso – uma vergonha útil, mesmo entre aqueles que conservam e cultivam o mesmo modelo de partido construído e imposto por Estaline e desejam uma sociedade como a por ele construída e é a sua razão de luta. Mais, o estalinismo, enquanto conceito negativista, é de enorme utilidade, sobretudo para os estalinistas (como o foi para o estalinista Krutchov) – constitui a “arca do mal” para onde se iludem as transferências dos erros, dos desvios e dos crimes (exorcizados em abstracto e condenados em termos genéricos) e de onde se sai com as mãos purificadas pela água benta da redenção igualitária e generosa da prática do bem revolucionário. E como já ninguém é assumidamente estalinista, pode-se praticar Estaline no pensamento e na acção desde que o seu nome não seja invocado, porque, na propaganda pelo menos, do comunismo e das suas variantes (incluindo a trotsquista que tem a vantagem iconográfica de ser guiada pelo pensamento de um Mártir assassinado às ordens de Estaline), só sobrou comunismo bom. Aprecie-se como se apreciar a obra de Krutchov, um elogio dele julgo ser passível de unanimidade – foi um notável mestre do marketing na política e na propaganda.

(*) – Sobre o papel de Mikhail Suslov na continuidade conspiradora do Kremlin, ler post seguinte dedicado a esta figura do cume do “estalinismo sem Estaline”.
publicado por João Tunes às 12:27
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005

ESCOLARIDADE E CHOQUE TECNOLÓGICO

i2_0067a.jpg

Através de posts e de comentários, o Miguel Silva tem levantado e tratado a questão de o nível português de escolaridade secundária ser não só o mais baixo da UE como cerca de metade do valor relativo espanhol.

É de, facto um valor terrível – 80% da nossa população não completou o ensino secundário (a IO completou este quadro com a indicação que só muito recentemente se chegou aos 50% dos que completaram o ensino escolar obrigatório, ou seja, os que terminaram com aproveitamento o 9º ano).

Projectando estes números para o ensino superior, chegaremos decerto a números ainda mais desanimadores, face aos padrões europeus, quanto ao número relativo de bacharéis e licenciados.

O que significa pois o resultado da explosão da frequência do Secundário e da Universidade após 1974? Primeiro, que foi uma explosão fraca e insuficiente (um quase fogacho se compararmos com o que se passa além fronteiras). Segundo, havendo de facto um enorme alargamento que dá uma quase sensação de banalização do acesso à Universidade por parte dos jovens, a recuperação do atraso medonho de ignorância e de desqualificação que o fascismo nos deixou como herança, leva décadas a superar.

Entretanto, a nível cultural na “expressão popular” (a mesma que pauta a aversão pela política, pelos políticos e pelos partidos), atenuou-se a tendência reverencial pacóvia para com o “senhor doutor” e “senhor engenheiro” para ir cedendo terreno à consagração do desagrado para com “todos quererem ser doutores ou engenheiros e faltar é gente para trabalhar” (típico de uma sociedade cristalizada na desvalorização do Saber, na teologia do Ter e no empurranço da apreciação do Ser para o pároco, o chefe e a família) .

Concomitantemente, desgraça maior, o mercado de trabalho mostra-se incapaz de absorver um grande número de recém-licenciados e muitos deles são obrigados a, camuflando as suas habilitações “excessivas”, procurarem a sobrevivência económica através de postos de trabalho de fraca qualificação.

Ou seja, os nossos indicadores de escolaridade e qualificação são baixíssimos, faltam empregos para os que se qualificam, socialmente tem baixado o prestígio dos que progridem com sucesso nos estudos.

Como sempre, a pergunta que se impõe é “que fazer?”. Como, neste quadro de aparente beco-sem-saída, dar a volta, procurando afirmar uma nova competitividade em maiores valores incorporados e acrescentados, o que só pode passar por uma mão-de-obra qualificada, a incorporação das modernas tecnologia e na afirmação da diferenciação? E o Miguel Silva acrescenta a estas preocupações uma pergunta-sentença atirada (julgo) à cara do governo e que apanhei por ricochete - ”que choque tecnológico se pode implementar quando 80% da população não completou sequer o ensino secundário?”

Chegado ao ponto de síntese e desânimo do Miguel Silva, surge também a minha discordância para com este tipo de ponto de vista. Porque não vejo que haja forma de gerir no tempo um faseamento social em que qualificamos primeiro e evoluímos depois. Se a exigência e a oportunidade de qualificação não aparecem (de forma a que seja gratificante para um licenciado terminar o curso e entrar no mercado de trabalho) a motivação pela qualificação vai falecendo. E sem esta motivação, aumenta a probabilidade de crescer o abandono e o insucesso escolares. Porque, há que reconhecer, não é imaginável que a melhoria dos indicadores se processe pela mobilização nacional para melhorar as estatísticas.

Nenhum País muda da noite para o dia (trinta anos não foram suficientes para escolarizar decentemente este País!). E as mudanças não só se fazem faseadas como têm, também, de decorrer em vários patamares consonantes. E o fio da meada encontra-se através de um elemento de catálise na mudança. Quanto às motivações para isso, julgo que seja perder tempo esperar que elas se processem pelas mudanças de atitude ou de posicionamento cultural. Terão de surgir factores objectivos que empurrem e imponham a mudança e a tornem gratificante (ou seja, útil e factor de prestígio e de estatuto remuneratório). Assim, o busilis, o mais dramático, o grande impasse, não estará na preocupante desqualificação da nossa população, encontrando-a na fraca e insuficiente receptividade empresarial, social e cultural (política, enfim) às fracções qualificadas que vão surgindo e não são absorvidas. Porque a nossa estrutura empresarial e de actividades continua, esse o nó cego, a assentar predominantemente na competitividade através da qualidade sofrível e do baixo custo salarial (incapaz, já hoje, de se bater com os “especialistas” nestes “produtos” – China, Índia, Paquistão, etc). Ora, não é precisamente a ideia de catálise do desbloqueio que enforma o slogan programático (tão desapreciado quando não ridicularizado pelos do "contra") do “choque tecnológico”? Estarei, caro Miguel, a ser mais socrático que Sócrates? Ou o meu caro amigo descrê, por questão de princípio, de tudo que venha daquela banda?
publicado por João Tunes às 02:22
link do post | comentar | ver comentários (7) | favorito
|
Sábado, 27 de Agosto de 2005

PAÍS DE QUÊ?

r3494468837[1].jpg

O que não se resmungará quando formos, de facto e como os outros, um “país de doutores”?
publicado por João Tunes às 00:42
link do post | comentar | ver comentários (9) | favorito
|

Para depois transformarem a Vida em quê?

r4154649686[1].jpg

«Transformar o Sonho em Vida». É este o lema que preside ao VIII Congresso da JCP (*), agendado para os dias 20 e 21 de Maio de 2006.
(jornal “Avante” de 25.08.2005)

(*) – JCP: Juventude Comunista Portuguesa (PCP)
publicado por João Tunes às 00:39
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005

NINO versus CABRAL

nino.JPG

Se a democracia fosse um regime de garantia das boas escolhas, perdia a graça e ia á falência do interesse. Porque se tornava chata devido ao enfado do pré-determinado. Assim, quem ganha festeja e quem perde tenta para a próxima. E se a maioria dá o voto naquele que a minoria julga ser o pior candidato, ainda resta a mobilização extra da raiva do desconsolo.Abençoada democracia que não permite que a escolha de todos seja a escolha de cada qual.

Pense-se o que se pensar sobre Nino Vieira, o certo é que temos de viver com o facto de que ele é o (de) novo Presidente da Guiné-Bissau. E é legítimo porque foi legitimado. E não adianta tossir.

Claro que houve coisas estranhas, sobretudo na política de alianças, no meter de bico de países limítrofes, numas malas cheias de euros mandados por empresários amigos e mais umas quantas suspeições deste ou daquele procedimento eleitoral. Mas, feito o balanço, consideradas as partes e averiguadas as queixas, Nino foi considerado vencedor e agora só há que seguir-lhe o mandato para ver como se comporta no regresso ao Palácio que ele tão bem conhece. E respeitá-lo na sua readquirida dignidade de Supremo Líder dos guinéos e confiando que não vá repetir asneiras passadas.

Cumprido o acto de culto para com as formalidades, sobra o interesse pelo paradoxo de Nino Vieira ter ganho a Presidência contra o PAIGC (Partido que prolonga a aberração de manter o “C” de Cabo Verde na sigla). Ou antes, contra o candidato proposto pelo PAIGC (o que, talvez, não seja a mesma coisa).

Sabe-se que Nino foi o mais notável General (entre os “pretos da Guiné” que lutaram pelo PAIGC) na luta de guerrilha. Conseguiu até, durante a luta de libertação, adquirir uma áurea tal que o transformou numa figura lendária entre a guerrilha que fez gato sapato da tropa portuguesa. Eu próprio, passados tantos anos, ainda arrasto a sombra do nervoso miudinho quando, uma vez por outra, a noite cai e me alucino a imaginar o regresso das chuvas de morteirada com que ele nos costumava mimosear no Sul da Guiné, encafuados no quartel cercado e ele nas suas mandanças de comandante da Frente Sul (também chamada, então, de “Reino do Nino”). E, passado o medo e despida a farda, ficou-me o respeito pelo combatente de talento. De talento e ganhador, porque com ou ou sem 25 Abril, o PAIGC ganhou (e ganhava) aquela guerra.

Um exagero a comparação que chegaram a fazer entre Nino e Giap. Mais coisa de propaganda deles e de valorização da oficialada do exército colonial a quem convinha agigantar o inimigo para contabilizar o heroísmo da resistência e da contra-ofensiva. Apesar de tudo, e tanto foi, a Guiné não foi o Vietname e, comparativamente, os contendores foram uma escala pequena num rectângulo pequeno. Mas não é isso que, no meu ver, diminui os méritos guerrilheiros de Nino. Ele deu provas no terreno e nas circunstâncias em que combateu e que chegou e sobrou para todas as nossas “Torre e Espada” que bem procuraram deitar-lhe mão.

Como se sabe, o PAIGC transportava consigo uma contradição insanável. E tanto que devia moderar a tendência para mitificar a pretensa genialidade de Amílcar Cabral (com enormes e diversos méritos mas com o senão gigante de ter criado, através do PAIGC, uma impossibilidade de realizar a vitória pretendida pois teimou em impôr dogmaticamente uma abstração intelectual ao conceber a unidade Guiné-Cabo Verde e que deu no que sabemos). Provavelmente, o génio de Amilcar Cabral foi obliterado pela sua condição de mestiço com raízes caboverdianas, acreditando que a ideologia seria capaz de lhe resolver os acasos de nascimento, projectando numa utopia os seus complexos sobre as suas raízes genéticas e de solo e lançando populações na sua concretização inviável. E, na prática, o PAIGC não foi mais que uma elite de mestiços caboverdianos altamente politizados e letrados ou semi-letrados e superiormente dirigida pelo talento de Amílcar (incapazes de desencadearem a luta em Cabo Verde, sequer de mobilizarem a maioria da sua poulação – os pretos caboverdianos) que foram para a luta na Guiné usando como massa de combate os pretos da Guiné (sobretudo os balantas). Ou seja, uma simetria repetitiva do percurso político dos quadros mestiços caboverdianos escolarizados que enquadravam a administração e a burocracia coloniais na Guiné. E, entre os combatentes pretos da Guiné (curiosamente, os balantas não deram um General de destaque durante a luta), Nino (de etnia papel, a circundante de Bissau) destacou-se e foi o mais promovido, por mérito próprio, a um nível de prestígio e de decisão próxima dos quadros caboverdianos do PAIGC. No fundo, Nino foi, para Amílcar Cabral, o preto de talento e útil para disfarçar (dando “autenticidade” africana) às cores “demasiado” claras (pelo sangue europeu) da nata do comando guerrilheiro.

Está para averiguar desde quando Nino Vieira se apercebeu do papel instrumental que Amílcar e os restantes caboverdianos lhe atribuíam e que uso fez, mais ou menos melífulo, dessa percepção quando estalaram as cisões e a intriga foi montada pela Pide e pelo exército colonial e que, culminou, como sabemos no assassinato do líder do PAIGC. O certo é que, desaparecido Amílcar (Aristides e Luis Cabral nunca tiveram résteas do carisma do Chefe assassinado), obtida a independência, Nino deu o golpe que pôs termo definitivo à utopia guinéo-caboverdiana e assumiu-se como o Chefe Supremo dos combatentes pretos e deitou mãos às rédeas do poder. Poder que exerceu da forma que se sabe, foi interrompida de maneira igualmente conhecida, regressando agora, com a legitimidade do voto popular, ao cadeirão presidencial. Com a curiosidade extra de regressar ao poder máximo contra o PAIGC. Resta saber se vai continuar a existir PAIGC com Nino de fora (e com o estigma de adversário) ou se, de uma vez por todas, Nino cobra, com conta de absolutismo (reapoderando-se do PAIGC ou levando-o à inacção da inutilidade), o papel de destaque que, um dia, Amilcar Cabral necessitou de lhe atribuir para contrabalançar a mestiçagem do PAIGC, gerando esta dualidade decerto não imaginada por Amílcar – um PAIGC só guinéo e só de pretos ou o fim do PAIGC às mãos do seu mais destacado General por via do voto democrático. Num caso ou noutro, sem lugares de proeminência para mestiços mesmo que de pele escura como era o caso de Amílcar Cabral (se ele voltasse a ser jovem, bem teria de penar para ter alguma cabidela no PAIGC...). O que é a maior negação ao cantado talento genial de Amílcar Cabral que criou o PAIGC para enquadrar e levar à luta um grupo de mestiços caboverdianos politizados e anticolonialistas com uso de mão-de-obra da Guiné-Bissau, nunca contando que o pessoal corresse com os encarregados da obra.
publicado por João Tunes às 17:39
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
|

LEMBRANDO ORWELL

bull.JPG

“Uma pessoa de classe média adere ao socialismo e talvez até ingresse no Partido Comunista. Que diferença concreta faz isso? Obviamente, vivendo no quadro da sociedade capitalista, tem de continuar a ganhar a vida, e não o podemos censurar se se apegar ao seu estatuto económico burguês. Mas notar-se-á alguma alteração nos seus gostos, nos seus hábitos, na sua maneira de pensar – na sua ‘ideologia’, segundo o jargão comunista? Dar-se-á alguma mudança, excepto passar a votar trabalhista ou, quando possível, comunista? Nota-se que continua a conviver com os da sua classe; sente-se muito mais à vontade com um membro da sua classe que o considera um perigoso ‘comuna’, do que com um membro da classe operária que supostamente concorda com ele; os seus gostos em matéria de alimentação, vinhos, roupas, livros, arte, música, ballet ainda são gostos reconhecidamente burgueses; e o mais significativo é que se casa invariavelmente na sua classe. Veja-se qualquer socialista burguês. Veja-se o camarada X, membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha e autor de O Marxismo Explicado aos Bébes. Acontece que o camarada X estudou em Eton. Estaria disposto a morrer nas barricadas, pelo menos em teoria, mas reparem que ainda deixa desabotoado o último botão do colete. Idealiza o proletariado, mas é impressionante verificar até que ponto os seus modos são diferentes dos do proletário. Talvez tenha, por mera provocação, fumado um charuto sem lhe retirar o rótulo, mas ser-lhe-ia quase fisicamente impossível levar à boca bocados de queijo espetados na ponta de uma faca ou manter o chapéu posto dentro de casa, ou até sorver o chá do pires. Talvez as maneiras à mesa não sejam um mau teste de sinceridade. Conheci muitos socialistas burgueses, ouvi-os discursar durante horas contra a sua classe e, no entanto, nunca, mas nunca, encontrei um que tivesse adoptado as maneiras dos proletários à mesa. E contudo, no fim de contas, o que os impede? Por que razão um homem que está convencido de que o proletariado reúne todas as virtudes e se dá ao trabalho de comer a sopa sem fazer barulho com a boca? Só pode ser por, bem no íntimo, pensar que as maneiras dos proletários são repulsivas. Assim se vê que ainda continua sob a influência do que aprendeu na infância, quando o ensinaram a odiar, temer e desprezar a classe operária.”

Em “O Caminho para Wigan Pier” – George Orwell

(“roubado” daqui)
publicado por João Tunes às 15:47
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|

MAIS UMA DO ARQUITECTO LUTZ

prole.JPG

Eu já me tinha dado conta, propagando-o, que um dos aspectos mais admiráveis neste companheiro de bloganço é a sua capacidade em nos desafiar a pensar o que julgávamos impensável. Conseguindo não cair na birra umbiguista e deletéria, no absurdo ou no anedótico. O que é obra, convenhamos, se olharmos para nós ou à nossa volta.

Agora, o Lutz desafia-nos com essa espécie de peregrina ideia de um tal Paul Kirchhof que defende o alargamento do direito de voto a todos os cidadãos a partir de um dia de vida (sendo este delegado, até à maioridade, nos seus tutores). Acresce que o dito Kirchhof não só não será um maluco (se o é, não é um maluco qualquer e tem méritos consagrados no exercício de funções que não é costume atribuir-se a diminuídos mentais como o de juiz do Tribunal Constitucional da Alemanha) como a sua aparente excentricidade foi apoiada por eminentes figuras da cena política alemã e pertencentes a vários quadrantes do espectro partidário, da Igreja e da Patronal (nada se sabe sobre a posição dos representantes sindicais e políticos do proletariado que, no caso e por causa das proles, seriam os mais beneficiados – em número de votos – com a medida). E das duas uma – ou os alemães deram cidadania à maluquice e gozam-nos que nem uns perdidos espalhando-a por tudo quanto é gente pensante ou malucos democráticos são afinal os que resistem em pensar ideias diferentes para o futuro da democracia.

E demonstrando que a inteligência não conformista arquitecta neurónios activos e criativos, o Lutz não só posta da forma sabida como espevita comentários como este e que nos merece, com vénia, transcrição e reflexão:

”Eu não relaciono a ideia do Paul Kirchhof com a baixa natalidade - pelo menos, prioritariamente - mas sim com a ideia de aperfeiçoamento da democracia política. Só por efeito de uma habituação às coisas, creio, pode considerar-se "natural" (!) a actual situação dos que, sendo cidadãos, não têm qualquer meio de expressão dos seus pontos de vista/interesses (sejam formados e/ou expressos pelos próprios ou por mediação de outrem).
Podemos vir a rematar qualquer discussão com pázadas de pragmatismo para justificar que apenas os maiores de 18 anos possam votar (e todos eles, quase sem excepção) mas isso não tem qualquer significado para o princípio que está em causa: o direito de voto não está reconhecido a todos os cidadãos.
Incidentalmente: há muito acredito que não há justificação para os maiores de 16 anos não poderem votar. É que, além de cidadãos, podem casar-se, podem celebrar contratos de trabalho, podem emancipar-se... Não procede o argumento da "imaturidade", por definição, posto o estado de coisas, nem o da "informação", por irrelevante.
O Kirchhof está longe de ser um anti-democrata, um sujeito alheio às exigências do chamado Estado de direito. Bem pelo contrário, tem provas mais que dadas na matéria - ter sido juiz no tribunal constitucional alemão é mais do que uma garantia neste aspecto. Seria muito interessante conhecer melhor tanto os fundamentos da solução como os mecanismos práticos da sua concretização.
Não tenho dúvidas de que isto é simplesmente o tactear de, sim ou não, mais um passo no sentido do alargamento da igualdade, da cidadania política - uma ideia com uma curiosa história de exclusões, logo ali no seu berço clássico, tão inaceitavelmente reservada, diríamos nós hoje, aos belos homens de Atenas.
Cada vez que se alarga o círculo da cidadania efectiva a nova ideia, como é com frequência próprio das verdadeiramente boas ideias, parece um infantil cúmulo do disparate. Assim foi também com o voto das mulheres.
Seja ou não esse o sentido da evolução, também me parece que a ideia do Kirchhof é um outro sinal de que, felizmente, o "cidadão de referência" já não é o "homem de bem" oitocentista (masculino, adulto, burguês). Deus já não é homem, e o cidadão já não é um adulto. (Pareço, finalmente, viável!)
Susana”
publicado por João Tunes às 15:16
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Quinta-feira, 25 de Agosto de 2005

AS DUAS ESTRELAS DA PRÓXIMA FESTA DO AVANTE

656destaque.JPG

”Na praça principal do Pavilhão Central poderá encontrar evocações do exemplo coerente de vida e de luta de ambos os revolucionários [Álvaro Cunhal e Vasco Gonçalves], em painéis concebidos para esse efeito.

No caso de Álvaro Cunhal, várias das suas obras pictóricas inéditas e nunca apresentadas a público estarão patentes na XVI Bienal de Artes Plásticas.

Um pouco por toda a Festa estarão à venda T-shirts com seis desenhos a cores criados nos calabouços fascistas pelo histórico Secretário-Geral do Partido.

Na feira do Livro, toda a sua obra literária política e romanceada estará em grande destaque e ali decorrerão debates sobre a vida e obra do revolucionário.

(...)

Também o General Vasco Gonçalves e o seu papel determinante durante os 14 meses de Governo provisório até à vitória da contra-revolução, em 25 de Novembro de 1975, vão estar em destaque, no Pavilhão Central através de um grande painel que salienta a importância do «companheiro Vasco» nas conquistas sociais e políticas que brotaram com a Revolução dos cravos.”


(jornal “Avante” de 25.08.2005)
publicado por João Tunes às 23:33
link do post | comentar | favorito
|

UM CC ANTICOMUNISTA

capt.sge.jsx79.060705212601.photo00.photo.default-280x380[1].jpg

“Somos frequentemente acusados de dirigir as nossas críticas privilegiadamente contra o PS. Trata-se de uma acusação infundada e que constitui uma das formas modernas de anticomunismo.” - Artigo de Aurélio Santos, dirigente do PCP, no jornal “Avante” de 25.08.2005.

“O Governo PS/Sócrates, apoiado numa maioria absoluta na Assembleia da República, desbaratou rapidamente o capital de esperança das eleições de 20 de Fevereiro, em que o povo português infligiu uma pesada derrota ao PSD e CDS-PP, e evidenciou o desejo de uma ruptura com a política de direita; acentuou os principais problemas económicos e sociais do País, sem resolver nenhum da pesada herança dos Governos PSD/CDS-PP, de Durão, Santana e Portas; agravou ainda mais, se era possível, o descrédito que as promessas não cumpridas e as malfeitorias da política de direita fizeram recair sobre o regime democrático. Era difícil fazer pior em tão pouco tempo.” - Comunicado do Comité Central do PCP (jornal "Avante" de 25.08.2005).
publicado por João Tunes às 23:02
link do post | comentar | favorito
|

NÃO HÁ PROBLEMA SEM SOLUÇÃO

656pg1a-jeronimo3[1].jpg

“Numa situação nacional marcada por agravados problemas políticos, económicos e sociais que comprometem o futuro do País, as condições de vida dos trabalhadores e do povo, reafirmando a esperança e a confiança de que é possível um rumo diferente e uma vida melhor, o Comité Central decide que o candidato do PCP seja o Secretário-geral, camarada Jerónimo de Sousa.”

Do Comunicado do Comité Central do PCP, reunido no dia 23 de Agosto de 2005 (publicado no jornal "Avante").
publicado por João Tunes às 22:28
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. NO RIO DA TOLERÂNCIA

. LEMBRANDO MARIA LAMAS, MA...

. SOLDADO FUI, OFICIAL TAMB...

. UMA VELHA PAIXÃO PELO “DL...

. LIBERDADE PARA FERRER GAR...

. VIVA A REPÚBLICA !

. FINALMENTE, A HOMENAGEM (...

. COM OS PALANCAS NEGRAS

. POR CESÁRIO VERDE
(esq...

.arquivos

. Setembro 2007

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds