Sexta-feira, 2 de Setembro de 2005

AS LÁGRIMAS DO URUBU

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Não só o Presidente Coronel Paraquedista Hugo Chavéz gozou com Bush e lhe ofereceu, com a grandeza cínica dos medíocres, um Batalhão para compensar a incompetência dos States.

Não só o Presidente da Assembleia Cubana saudou as vítimas exploradas do Mississipi e ofereceu solidariedade que compense a inépcia das operações de socorro.

Não, não foram só eles. Não faltou urubu por aí que, sem esperar que os mortos fossem a enterrar, não metesse o Iraque em cima de Nova Orleães.

Os urubus não dormem. E, quando calha, choram.
publicado por João Tunes às 23:03
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TRAPP EVOCAÇÃO

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Lembrei-me dos velhos treinadores de futebol que foram antigos jogadores. Amarrados ao banco pela idade e, esgotado o tempo em que o seu respirar ditava um tempo que se quis de vitória, agora com missão de guiarem pés, pernas e cabeças de outros a desenharem assistências mortíferas e chutos certeiros. Num palco em que lhes cabe, agora e apenas, o papel de metade encenador e outra metade como jogador de poker. Afinal, um desporto tão bonito, o mais belo do mundo, transformado ali, na relva que nos continua os pés, num palco de teatro em que já não nos aceitam em cima das tábuas e nos dão um banco como reforma. Desesperando, quando o actor se corta à deixa ou outro treme com o palco todo para si.

Senti isso em Trappatoni. Essa vontade contida de entrar em campo e ajudar ou resolver. Mais noutros tantos e de todas as cores e feitios.

Mas eu vi com estes olhos - que a terra há-de comer se não estiver empaturrada – um velho jogador, com estatuto de treinador vetusto, o mais prestigiado num clube e em todas as antigas selecções, cabelos brancos penteados como emblema de respeito, saltar para dentro de campo e gritar - "Se vocês não marcam, marco eu! Eu quero marcar!". E correr. E tentar fintar agarrado a Fernando Pessoa. Como se o elixir da inspiração de um poeta maior fizesse o tempo desandar no tempo e esquecer a marca de outros poetas e que existe, pela frente, uma equipa adversária equipada a preceito e que come a relva para o campeonato ganhar. Talvez não se lembrando que melhor que esse poeta escolhido - uma boa esolha, Pessoa continua o Maior - devesse ser um outro que não soubesse, não só de finanças nem de bibliotecas, mas também de futebol e nem sequer constasse que tivesse contrato com um clube de jogadores mortos.

Eu vi. Alguém mais viu?
publicado por João Tunes às 22:13
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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005

A MINHA SINA COM OS LIVROS SAGRADOS

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Tendo acabado de falar aqui do patusco “livrinho vermelho” com os pensamentos de Mao tão usado em tempos idos por algumas hoje veneráveis figuras públicas, lembrei-me que, nunca tendo sido maoísta nem por lá perto, também possuí o “meu” que (sem o chegar a abrir) guardei religiosamente até o perder nas mudanças de casa pelos recaminhos da vida. O não o ter aberto não era problema porque aquele objecto tinha sido mais concebido, suponho, para esgrimir na mão e abaná-lo acima das cabeças que para leitura aturada. O tê-lo visto perdido isso sim foi problema pois ele tinha-me vindo parar às mãos por oferta empenhada e sentimental de um amigo muito amigo. E por isso, ao largo do sagrado político, oferta com essa marca tinha um lugar sacro nos meus sentimentos.

A história do meu “livrinho vermelho” conta-se rápido. Vindo do Porto e tendo voltado a estudar em Lisboa, aboletado na casa da minha irmã mais velha, apareceu-me um dia, esbaforido, um amigo do peito e companheiro de lutas fugido do Porto pela eminência de a PIDE lhe deitar mão. O meu amigo e companheiro queria dar de frosques, “dar o salto” como se dizia, zarpar para o estrangeiro escapando às manápulas dos esbirros policiais e, dois em um, baldar-se à incorporação militar malhando com os ossos na guerra colonial. Posto o problema à minha senhoria e irmã, ela não hesitou um segundo sequer e logo instalou o moço num canto adaptado com todas as serventias asseguradas. O amigo ficou trancado em casa e eu andei em bolandas para arranjar forma de lhe arranjar forma de “dar o salto”. Pelos vistos, bati às portas certas e, passada uma semana, o foragido já tinha passado os Pirinéus (deduzi eu por ausência de notícias sobre a sua captura). Passados anos, aparece-me o mesmíssimo sujeito, disfarçado com barbas e outros retoques, para me dar conta do seu sucesso na escapadela, agradecer a mim e à minha irmã a ajuda que lhe tinha sido preciosa. Disse que arranjara trabalho em França e na Bélgica e agora estava de regresso passageiro em “actividade clandestina”. Sabia que não devia fazer perguntas e assim cumpri. Agradecimentos feitos e trocados os competentes brilhos nos olhos e as palmadas nas costas, o meu amigo disse que estava com pressa e deixou-me como oferta em penhor da amizade e da ajuda um exemplar do “livrinho vermelho”. Nem lata tive para lhe dizer que não navegava naquelas águas (inútil seria porque já o devia saber). Aceitei e guardei-o religiosamente de acordo com o respeito devido para com as prendas de amigos. Claro que o voltei a encontrar (o amigo) depois do 25A mas essa seria parte desinteressante se a enxertasse aqui.

E como as conversas são como as cerejas, lembro-me agora de um segundo livro em que me sucedeu algo semelhante com o passado com o “livrinho vermelho”. Por intermédio de uns amigos, cheguei ao conhecimento e amizade com um jovem padre católico espanhol que por cá andava, um tipo progressista e assim a puxar para o guevarista. Tivemos longas conversas em que nos entendemos às maravilhas e em que o bom senso de ambos mandava que a religião ficasse fora da ordem dos trabalhos. Era um dos chamados “Padres de Burgos” que estavam à espera de embarque para missão evangélica em Moçambique e que depois, pela denúncia feita à guerra colonial, acabariam por ser expulsos pela PIDE e corridos a pontapé. Não o voltei a encontrar mas a Bíblia que ele me ofertou no dia em que embarcou para Moçambique ficou sempre guardada até se perder. Intacta de leitura inútil, mas guardada com o também devido respeito e consideração a este outro livro santo.

Moral da história: tenho sina de bons amigos me ofertarem livros sagrados, trato-os bem sem os gastar com leitura, acabo por os perder sem ponta de afronta ou de maldade.
publicado por João Tunes às 18:00
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AMIZADE ANTIGA

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“Durante os últimos 45 anos, desde o início das relações diplomáticas, os nossos povos alargaram e desenvolveram continuamente os seus laços de amizade, apoiando-se estreitamente na luta para derrotar as acções subversivas dos imperialistas norte-americanos, nosso inimigo comum, e para defender o socialismo.”

Da mensagem de Kim Jong Il dirigida a Fidel Castro, esta semana, segundo a “Korean Central News” (agência noticiosa da Coreia do Norte).

Em Cuba, prendem-se os jornalistas “não oficiais”. Na Coreia do Norte, os únicos rádios à venda e autorizados estão bloqueados para só captarem os postos “oficiais” (com obrigatoriedade de os aparelhos serem sujeitos todos os trimestres a inspecção para verificação da boa ordem no bloqueamento). Assim, pela banda da informação, não restam dúvidas que, neste caso, a longa amizade leva ao sucesso na luta contra o verdadeiro “inimigo comum” (a liberdade).

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publicado por João Tunes às 16:41
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LÁGRIMAS COMO CALCANHAR

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Menos um livro em falta na literatura em défice sobre a guerra colonial. Prefiro dizer assim que dizer “mais um livro sobre...”. Porque (falando só do lado português) é incompreensível que uma guerra em três frentes que durou treze anos e mobilizou centenas de milhares e deixou marcas tão fundas, tenha inspirado tão poucas ressonâncias literárias.

O livro (romance) de que trato hoje (*) foi uma agradável surpresa no meio das minhas leituras de Verão. JMS tem uma escrita leve, depurada e impressiva. A realidade e o absurdo da guerra na Guiné está admiravelmente traduzida na transmissão dramática da violência transformadora que a guerra faz nos homens e os homens fazem na guerra. Por outro lado, um interesse maior, a figura do protagonista foge aos extremos da tipificação – nem é o militar patriótico-colonialista-assassino nem o militante anticolonial a curtir raivas da contradição por estar ali no lado errado. Não que não tenham existido magotes de um e outro tipo a fazerem a guerra colonial, mas porque a grande maioria dos militares fardados que andaram pela guerra em África eram os que estavam numa espécie de “meio caminho”. O personagem principal escolhido por JMS (supondo-se que autobiográfico) é um desses – os que aprenderam na guerra o absurdo da guerra e a estupidez particular e insolúvel daquela guerra.

Infelizmente, o que se devia ter sido um livro autobiográfico de crónicas e de memórias (e a parte em que se pode ler assim é excepcionalmente talentosa) subiu até a ambição de ser Romance. E aí, nessa passagem, JMS espalhou-se ao comprido. O enredo sentimental é desastrosamente desconseguido, os rodriguinhos andam á solta, o reencontro do antigo militar com o antigo protegido da tropa colonial agora apparetchick do PAIGC é um desconsolo pela inutilidade perdida na trama.

Resumindo, um livro mais que recomendável. Direi que aconselhável como leitura urgente num panorama editorial em que parece que três terríveis guerras não rasgaram o Ser e o Estar de um povo abandonado porque se abandonou à longa tirania de um teimoso sem escrúpulos, insensível ao sangue e até ser capaz de empurrar um povo para a ravina do absurdo.


(*) - “As Lágrimas de Aquiles” de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre – Editora Oficina do Livro
publicado por João Tunes às 15:31
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O QUE LÁ VAI, LÁ VAI

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Mas a curiosidade fica – onde pararão os velhos e abandonados “livrinhos vermelhos” com os pensamentos de Mao?
publicado por João Tunes às 00:03
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