Sexta-feira, 9 de Setembro de 2005

UMA CARTA

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Aqui, Ganjolá, Guiné, 10-1-1965

Mesmo no sul da Guiné, pequeno destacamento militar presta continência à Bandeira Verde-Rubra que sobre o mastro fica brilhando ao sol. E que linda que é a nossa bandeira; e é tão alegre, tão garrida, só olhá-la nos faz sentir alegria e também emoção; alegria de sermos portugueses e emoção por estarmos cá longe para a defender. Embora assim perdida no mato, a bandeira, brilhando, afirma que aqui também é Portugal.

Em volta, meia dúzia de barracas verdes, o nosso aquartelamento, a única nota de civilização nesta imensa planície. Muito ao longe, quase perdidas no mato e no capim, algumas palhotas indígenas; de resto, tudo é solidão. Somos soldados de Infantaria e por isso o nosso trabalho é fazer operações em qualquer parte do mato.

Aqui não há escolas e as igrejas não têm paredes; o tecto é o céu. Em toda a parte se reza e tudo nos incita à oração. Deus está em toda a parte e ouve-nos.

Hoje é domingo, dia de descanso, não se trabalha, mas distracções também não há. Alguns vão à pesca ou à caça; outros, deitados debaixo das enormes árvores, dormem e pensam nas suas terras e famílias distantes, mas pertinho do coração. Como são diferentes aqui os divertimentos nos domingos.

Dois soldados vão todos os dias à caça; por isso, fome não há. Temos carne com abundância, mas falta tanta coisa!... Ei-los que chegam com tenros cabritos e gazelas e logo enorme fogueira crepita alegremente. Esfolam-se os animais e lava-se a carne; a água não falta, embora para se beber seja preciso enorme cuidado. Prepara-se um espeto para se assar a carne. Espalha-se então o cheiro da carne assada pelo pequeno acampamento. Está a refeição preparada; troncos de árvores, caixotes vazios, servem de mesa e de cadeiras.

Todos se servem. A refeição é pouco variada: apenas carne assada e pão. O vinho também é pouco, mas dividido irmãmente dá para todos; que bem que sabe uma pinguita com este almoço!...

Bebia-se mais mas não há, paciência… O improvisado cozinheiro faz enormes quantidades de café. Todos enchemos os copos de alumínio e bebemos alegremente. Acaba a refeição; por fim, alguns macacos, meio domesticados, que por aqui andam, aproximam-se e reclamam a sua parte.

É assim um domingo no mato. Depois de explanar esta ideia, termino. Despeço-me com o mais ardente desejo de a todos vós abraçar brevemente, fazendo preces ao Senhor para que tenhais saúde e boa sorte. Vosso amigo que respeitosamente se subscreve, todo vosso.

José António Canoa Nogueira.
Soldado nº 2955/63
SPM 2058.


Esta carta tem quarenta anos. Foi uma das últimas enviadas pelo Soldado Nº 2955/63 antes de se encontrar com a morte na terra da Guiné-Bissau. Foi publicada no quinzenário regionalista “Alvorada” da Lourinhã. Reveladora da forma muito própria como os soldados do exército colonial português, de uma forma geral, sentiam a atmosfera da guerra e procuravam conservar o optimismo e a auto-estima. Embora se notem os cuidados sublimados na sua redacção por ser uma carta dirigida a um jornal da época, portanto sabendo que existiam os crivos da polícia e da censura, e referindo-se a um teatro de guerra que só se agravou dramaticamente mais tarde, a candura épica do “povo fardado” está ali entranhada e que é um dos muitos factores que ajudam a explicar como foi possível que, no fascismo-colonialismo português e durante treze anos, centenas de milhares de cidadãos portugueses aceitassem lutar e morrer, procurando matar e sobreviver, para prolongar o pesadelo da quimera de uma demência imperial.

Texto e imagem obtidos no blogue do Luís Graça.
publicado por João Tunes às 16:04
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2 comentários:
De Joo a 12 de Setembro de 2005 às 23:27
Caro Vitor, é um prazer tê-lo de volta aos comentários. O "retrato de guerra" do seu pai é igual ao de muitos outros. Bem parecido com o meu, por sinal. O pior nas evocações é o ruído da sobreposição de experiências e pontos de vista. Ou seja, perante o diferente não resistir a ripostar "pois, comigo foi assim", "eu não acho isso, eu acho...". Ou seja, uma vontade imensa e inesgotável de nos ouvirmos e nos reproduzirmos, em opinião e em memória, e uma débil disponibilidade para ouvir outros, escutar diferentes pontos de vista e memórias com impressões antagónicas. Eu nunca escreveria uma carta como a carta que escreveu o soldado José António que, depois de a escrever, morreu em combate. Por todas as razões. Mas conheci muitos dos que combateram que escreveriam exactamente uma carta bem parecida. Provavelmente, a maioria escreveu cartas (ou pensou-as) como o soldado José António escreveu a sua (caso contrário, o 25 de Abril teria sido muito antes de 1974). O que retive desta carta que nunca escreveria é a candura naif comungada por tanta gente fardada para combater. No caso do José António, a tragédia do naif é que, depois de escrever a carta, tombou em combate. Por causa da bandeira em que acreditou e lhe deu orgulho mas que não lhe pagou o funeral na sua terra natal (o transporte do corpo para Portugal foi feito com uma subscrição dos seus camaradas de armas). Que mais não seja por isso, eu só posso respeitar a memória do soldado José António. Nunca tendo pensado como ele mas talvez por isso mesmo lhe devo um preito suplementar de respeito na tolerância. E o José António não caíu de para-quedas na Guiné, "alguém" o mandou para lá combater e ... morrer. Abraço.


De Vtor Sousa a 11 de Setembro de 2005 às 14:11
Caríssimo, essa guerra torpe coagiu muitos jovens, na altura, a abandonar as famílias, amigos e namoradas, partindo para terras do Ultramar. O meu pai foi uma das vítimas, mas regressou vivo, felizmente. De outro modo, não estaria a escrever estas linhas. Conta-me o meu pai que nunca pensou na bandeira portuguesa, apesar dos discursos de patriotismo incandescente propagados pelas chefias. Viveu toda a juventude a absorver, e a repudiar, os discursos de Salazar, mas rumou a Cabinda, Angola, na década de 70. Morreram muitos companheiros. Lá, passou quase 22 meses no mato, sempre atemorizado pela ameaça de emboscadas. Pensarm em Portugal numa guerra motivada por razões abjectas? Não! O meu pai pensou na sua pela e nos que o esperavam, na Madeira.
Um abraço.


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