Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

SOBRE A “FESTA”

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O modelo é um puro “copy-paste” de importação (de iniciativas idênticas e vetustas do “L’Humanité” e do “L’Unitá”) mas não deixa de ser altamente relevante – no nosso panorama social, político, lúdico e cultural – o seu sucesso e a persistência deste. E tanto mais que, apesar da fase continuada de perda de influência e declínio eleitoral do PCP, a “Festa do Avante” continua a ter um altíssimo poder de atracção e de congregação (e que extravasa o círculo dos seus militantes, simpatizantes e eleitores, sendo transversal na atracção sobre camadas etárias, estatutos sociais, sensibilidades políticas e níveis culturais). E é um facto que não tem paralelo, em termos de concentração de interesses, com qualquer outra iniciativa político-cultural para consumo interno.

Estamos, assim, perante um aparente paradoxo – num país que parece detestar a política, os políticos e os partidos, assistir-se ao sucesso de um “produto forte” proveniente de um extremo do arco partidário (sem disfarces nem sofismas quanto à “marca da casa”) que recolhe abaixo dos dois dígitos percentuais nas preferências eleitorais e em que o jornal promotor que lhe serve de bandeira é de fraquíssima difusão. Haverá pois, na fórmula da “Festa do Avante”, uma razão, ou várias razões, de sucesso que leva uma parte significativa dos seus muitos frequentadores a terem uma posição atípica nos mecanismos da gestão dos seus estereótipos face a uma iniciativa vincadamente partidária.

Julgo que qualquer estudo sociológico sobre o fenómeno da “Festa do Avante” revelaria, primeiro que tudo, que não há “uma fruição” da iniciativa mas sim “várias”, sem que essa diversidade crie dissonâncias ou conflitos que impeçam a existência de um “único ambiente”. E este é, a par do retorno em receitas financeiras, um enorme sucesso partidário pois coloca debaixo da bandeira do PCP, um partido em declínio e órfão da sua principal e ancestral referência internacional, durante três dias, uma multidão variável, heterogénea e diversificada dos pontos de vista social, geracional e política.

Para além da acessibilidade nos custos dos acessos (através da “EP”) face à diversidade de fruições proporcionadas, a geometria, a dinâmica, o ambiente e a multiplicidade dos conteúdos da “Festa” contam decisivamente para o seu sucesso.

A existência de amplos espaços ao ar livre, mais a miríade de bares e tasquinhas em pontos dispersos, entre os vários pólos de intervenção e em actuação simultânea, descomprime o itinerário e permite refrescar o sentimento de escolha perante a agenda e o calendário das ofertas, aliviando a eventual tendência para a sensação de manipulação que resultaria de uma oferta concentrada e com programa rígido. Por outro lado, dominando a circulação sobre a fixação estática, criando-se uma dinâmica dos fluxos de movimentos entre os pólos espacialmente distribuídos, num ininterrupto ir e vir (excepto nos “momentos altos” de música e no comício), geram-se sentimentos complementares e gratificantes de liberdade e de pertença (escolhe-se e há muita gente a escolher).

Os “pontos altos” dos espectáculos (à noite) concentram-se no palco principal e seu maior espaço de auditório. São os momentos dos “cabeças de cartaz”, cuja notoriedade e popularidade se importam de ressonâncias do mercado do espectáculo. Então, a mole humana concentra-se, a “Festa” é “despolitizada”, cedendo lugar à fruição artística e à criação de uma “dinâmica de concerto” que ganha amplitude pela dimensão da multidão. É a fase em que, aumentando o número de participantes via incorporação dos muitos que só lá vão “pela música”, pontifica o sentido gregário que intercala a “livre circulação” das fases de “andar pela festa”.

O ambiente é marcado pelos militantes e simpatizantes do PCP que, não escondendo o orgulho da sua coloração, mística e simbologia, moderam naturalmente as tendências para as marcas impositivas porque “é festa”, a diversidade inibe couraças, os muitos copos bebidos desinibem muitas almas, a fraternidade partidária tem ali o seu espaço anual de celebração para os encontros e reencontros sem o espartilho das regras ascetas do centralismo democrático. A grandeza da “Festa” acentua a ilusão de alargamento da influência e compensa frustações das agruras do declínio de influência partidária no quotidiano militante. E como, para muitos, a presença na “Festa” é o seu único vínculo à militância comunista (para além do voto que é um acto solitário) aquela celebração beneficia de um realce como sinal de presença e de fidelidade além de compensar sentimentos de culpa pelo pouco “dado ao Partido” no resto do ano. Todos são bem vindos e bem recebidos. Todos se tratam por tu e, se não são camaradas, são “amigos” (e se não votam “bem”, um dia lá chegarão). Esta rede relacional composta por afirmação identitária aberta, descontracção, alegria e afecto, é tecida de uma forma emocional não impositiva que não agride diferenças. Por outro lado, embora a marca da “presença sulista” seja dominante (correspondendo às zonas de maior influência do PCP e ao local da sua implantação), o facto de a “Festa” atrair gentes de todos os locais do País dá-lhe uma componente de identidade plural-nacional que folcloriza o ambiente, torna-o único e dá-lhe a espessura pitoresca de ali se concentrar “Portugal em ponto pequeno”.

Para os “habituais”, a experiência acumulada nas várias edições da “Festa” permite sinalizações de polarizações e marcações de “pontos de encontro e convívio” em que se reproduzem anualmente concentrações gregárias segundo critérios de afinidades corporativas, regionais e de acordo com status sociais, culturais e políticos, normalmente assentes em espaços de comes e sobretudo bebes – “aqui” juntam-se os “intelectuais”, “ali” os professores, “mais adiante” os bancários, “logo a seguir” os camaradas do Porto ou os metalúrgicos que trabalharam juntos na Lisnave ou os que curtem a saudade da reforma agrária e conservam o orgulho alentejano. Quanto à juventude, a quem se presta atenção e enlevo, é-se tolerante para com os seus escapes e excessos e dá-se-lhes espaços largos e próprios para fugirem ao peso dos ambientes onde dominam os “cotas”.

A componente cultural procura reunir as componentes folclórica, de sofisticação cultural e largas doses de fruição para apetência autodidacta (literatura e arte acessível e explicada ao povo). Assim, o intelectual refinado não se sente nivelado por baixo (“proletarizando-se” pela componente popular dominante), as camadas populares confortam-se com um verniz cultural de prestígio (“intelectualizam-se” porque isto da cultura é para todos, embora seja cara e aqui há que aproveitar). Ou seja, uma ilusão de osmose que é reconfortante para uns e outros.

Os fortes pólos de nacionalismo e internacionalismo que tecem a ideologia do PCP são uma das traves mestras da arquitectura política da “Festa”. A marca nacionalista, a maior parte das vezes expressa de forma serôdia e sem critério de apuramento qualitativo, mor das vezes de nível popularucho, exprime-se na variedade do artesanato regional e nas demonstrações gastronómicas e nas especialidades locais, funcionando como élan atractivo num público proveniente, em grande parte, de fortes fluxos migratórios e de urbanizações de fresca data. A mitigação das “saudades da terrinha” tem ali basto pano para mangas. Sabiamente, as distribuições regionalistas não obedecem à geografia da influência eleitoral do PCP, prevalecendo os critérios da equidade representativa. O que confere uma ilusão de homogeneidade distributiva da penetração partidária, reconfortando os camaradas das “zonas difíceis” vivendo em “guetos partidários” e despertando a benevolência solidária dos que vêm das “fortalezas vermelhas”. A “cidade internacional” já foi uma “parte de luxo” da “Festa” e correspondia ao objectivo de dar uma dimensão planetária à luta do PCP e ao seu reconhecimento internacional por parte dos “irmãos de credo”. Foi o tempo das representações dos colossos dos Partidos no poder em que qualquer bugiganga propagandística era procurada com fervor bem como aquelas bancas “pobres mas honradas” que representavam o martírio heróico dos combatentes em zonas difíceis contra os fascismos, os colonialismos e os imperialismos. Depois da queda do “muro irmão”, perdidos os maiores pólos de atracção e apoio, através da celebração exacerbada de Cuba e de Che Guevara, procura-se, na ampliação dos mitos, superarem-se os sentimentos de perda e de abandono, negando o isolamento e o exótico da pertença comunista no nosso país.

O comício (na tarde de domingo) é o grande e faustoso “parêntesis” marxista-leninista na “Festa”. Ali, sob a forma de “comício nacional”, a “Festa” “manda” descansar os amigos e os intrusos políticos, procede-se à reapropriação do “seu a seu dono” – a “Festa” é do PCP, a “Festa” é o PCP, viva o PCP, assim se vê a força do PêCê. E o discurso do líder em funções marca a táctica para a nova temporada política e partidária. É a hora da recolha de juros do poder atractivo da “Festa”, o regresso aos pesados rituais partidários, a reprodução das marcas de fidelidade e a hora sectária na liturgia do obreirismo, do messianismo partidário, da celebração dos mitos, da manipulação dos ressentimentos e rancores e do exorcismo de inimigos e seus fantasmas (como desde sempre, é também o momento da desbunda na porrada ao PS, o grande competidor eleitoral). Na grandeza do comício partidário, o PCP redime-se de tanta abertura de portas e tamanha atracção unitária e abrangente. Porque toda a ilusão tem um preço a pagar e um valor a cobrar. Depois do comício, ainda há lugar para um dos “grandes espectáculos”, com uma “star” poderosa do mundo do espectáculo, para que a patine da abrangência não se perca com o desmontar da “Festa” e assegure regressos para a próxima edição.

Finalmente, o discreto e eficiente “serviço de ordem” garante uma segurança exemplar que solte as energias libertárias sem constrangimentos nem excessos. E a disciplina que é apanágio da casa é demonstrada pelo escrupuloso cumprimento do calendário e pelo zelo fraterno na oferta e venda de serviços, grande parte assegurada pelo voluntariado de militantes circunspectos das suas obrigações e deveres. Ou não fosse aquela “Festa” a jóia da coroa partidária.

No fundo, cuida-se bem aquela romaria de manipulações, mitos, fruições e partilhas. Para que continue como uma formidável fábrica reprodutora de ilusões e com um bom serviço de manutenção e logística. Porque, na Atalaia, gasta-se pouco e está-se bem. E, para o ano, há mais.
publicado por João Tunes às 15:24
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4 comentários:
De Joo Lopes a 11 de Setembro de 2005 às 17:57
Em Fevereiro de 2005, o PCP aumentou a votação em TODOS os círculos eleitorais. E no entanto, o João Tunes – uns meros 6 meses depois – fala da: “fase de continuada perda de influência e declínio eleitoral do PCP” do “PCP um partido em declínio e órfão” e sobre “as agruras do declínio da influência partidária”.

E sobre a Festa começa por dizer que o seu modelo “é um puro “copy-paste” de importação” e acaba chamando-lhe: “romaria de manipulações, mitos, fruições e partilhas” e “formidável fábrica reprodutora de ilusões”.

Mas entretanto admite que a Festa “continua a ter um altíssimo poder de atracção e de congregação” e que “não tem paralelo, em termos de concentração de interesses” e explica mesmo o seu sucesso pela “geometria, a dinâmica, o ambiente e a multiplicidade dos conteúdos”.

Afinal o esquema anticomunista não mudou e continua a passar pela menorização, diminuição e falsificação dos resultados e das iniciativas do PCP, mesmo que quem o faça como o João Tunes acabou de fazer só lhe traga (mais) descrédito e mostre que além do mais ele é destituído do sentido do ridículo.


De Guida Alves a 11 de Setembro de 2005 às 15:45
Querido João: análise mais completa e abrangente nunca a vi lugar nenhum. A Festa é mesmo isso e tudo isso. E lá continuo a ir todos os anos, mesmo que de todas as vezes ache que "não vale a pena". Mas a fruição dos encontros, do espaço em si, dos espectáculos, enfim, a "festa", atrai-me sempre irresistivelmente. Se aos meus filhos nasceram os dentes na Festa, um dia aos meus netos sucederá o mesmo. Porque, sejam quais forem os motivos que nos levam à Quinta da Atalaia, ainda nos sentimos bem ali, pesem todas as diferenças que os tempos e as circunstâncias originaram. Entre parêntesis: não gosto do tom amargo desta tua prosa (ou será só impressão minha?) Beijo sempre muito amigo.


De Joo a 9 de Setembro de 2005 às 16:28
Que me desculpe a Papoila mas, com toda a consideração, lhe digo: foi uma das coisas mais espatafúrdias que li ultimamente esta de comparar a Festa do Avante às Festas do São João no Porto...


De Maria Papoila a 8 de Setembro de 2005 às 19:31
"Não há Festa como esta!"... Em festas de tamanha congregação de opiniões, só batida pelo S. João na minha "muy nobre" cidade de burgueses... entrei ao acaso, voltarei...


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