Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

“NÓS” E O PODER

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O paradigma cultural da relação dos portugueses com o Poder está contaminado por uma ambivalência – espera-se dele a protecção, repudia-se a sombra da sua presença.

A necessidade da protecção pelo Poder deriva de um sentimento de fragilidade de cidadania autónoma que ameaça a sobrevivência ou, no mínimo, inibe a percepção de possibilidades de ascensão social. A repulsa relativamente ao Poder advém do sentimento de asfixia do peso excessivo do Poder em termos objectivos e na projecção imaginária.

Este paradigma e a ambivalência associada dita a forma como se olha o Estado, as fontes de autoridade, as figuras que beneficiam de notoriedade e as representações delegadas da vontade social politicamente expressa (os órgãos de soberania e os seus membros) bem como das elites que exercem as delegações de soberania (os partidos, os políticos ou, como se diz, a classe política).

A relação simultaneamente forte e precária dos portugueses com o Estado vem dos nossos confins históricos, sendo típica de um País pequeno e frágil, pobre de recursos, ameaçado por um vizinho musculado, carente de alianças protectoras e de sublimações patrimoniais através de projecções num espaço vital mais amplo (colónias primeiro, Europa depois). O fascismo, centralizando o poder do Estado e dando-lhe foros de omnipotência autoritária, reduziu a energia cidadã de enfrentar e domar as forças do Estado ao nível mínimo. Depois, com a revolução, as soluções que se venderam foram sempre apresentadas via Estado (na melhoria da vida, na protecção social, na posse dos meios de produção, na distribuição da riqueza, na produção de leis melhores). Nunca tendo correspondido às altas expectativas nele depositadas, não sendo portanto uma personagem grata, o Estado ficou com a fama da omnipotência e o ónus de ser considerado um predador incompetente nos fluxos de retorno. Resultado: odeia-se o Estado mas não se passa sem ele, o que prefigura uma relação com qualidade política do tipo sado-masoquista.

Por tabela, as representações, as delegações, os símbolos e as personagens do mundo político sofrem o efeito negativista-dependente da relação dos portugueses com o Estado. Tudo (eles, não eu, menos eu) pertence à mesma “cambada”. Cada um é “eu” (crítico independente) face a “eles” (os políticos, a política, a autoridade, a soberania), enquanto o “nós” inexiste. Esta dissociação é possível porque a esfera da actividade política como meio de decisão foi transferida, pelo voto que delega a representação e por omissão de exercício de intervenção cívica, para uma elite que se apropriou do fazer político e que é pessimamente avaliada quanto ao seu desempenho. Os portugueses, passada a borracheira do PREC (que mais que realidade consolidada foram representações cruzadas de várias ilusões), entraram em demissão e escorraçaram a política e os políticos para dentro dos seus nichos “profissionalizados”. Agora detestam-lhes a distância e o funcionamento no círculo fechado dos seus pares.

O problema é esta ambivalência poder provocar ou proporcionar o pior entre os resultados possíveis - o descrédito dependente relativamente ao Estado criar uma noção consciente ao nível sócio-cultural sobre a incapacidade regenerativa do Estado, da política e dos políticos. Chegados a este grau zero, a tendência será a fuga para a redenção. Via Messias, por exemplo. E como uma desgraça nunca vem só, em momentos destes, o Candidato costuma aparecer. Por vezes, com sucesso. Pagando-se em preço, no mínimo, a perda do património do modelo republicano como forma gregária democrática de nos governarmos.
publicado por João Tunes às 02:06
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3 comentários:
De Julia a 9 de Setembro de 2005 às 19:29
Volto a referir que o comicio da Festa do Avante nunca se realizou ao sábado, como refere no seu blogue, mas sim ao domingo à tarde.
É um erro absolutamente primário. Ou então uma confusão momentânea.

Julia Coutinho


De Joo a 8 de Setembro de 2005 às 17:04
Cara Odete, já me começo a sentir embaraçado com as expressões do seu apreço simpático. O que não obsta a que lhe agradeça. Obrigado igualmente pelas achegas num tema que tem pano para mangas e onde nunca se consegue referir todas as vertentes (para mais na quadrícula de um post). Aproveito para lhe dizer que me senti feliz por ter gostado de Chinchón. E desejo-lhe as maiores felicidades na sua próxima disputa autárquica. Volte sempre.


De odete pinto a 8 de Setembro de 2005 às 12:09
Brilhante, como sempre, o seu diagnóstico.

Terá talvez faltado assinalar "a indiferença" tanto por parte de grande parte dos cidadãos como do(s) poder(eres).

Nunca, até por respeito da dignidade do próximo, subornei nem "cunhei".

A contrapartida que tenho tido é ser considerada "parva" e sofrer as consequências.

Tenho lutado, sempre com urbanidade e bom senso, e "delicio-me" não com as respostas ou acção delas decorrentes, que raramente existe, mas com as expressões faciais que ilustram os interlocutores de ocasião: "coitada, não deve saber viver"...


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