Quarta-feira, 7 de Setembro de 2005

TODO O FIM TEM COMEÇO

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Sabemos bem, por memória sofrida, como a coisa correu e como acabou ou descambou. Nem a coisa exige muita ciência para decifrar – estrebuchámos e acabamos corridos a pontapé por indecente e má figura. Falo, como se percebe, do nosso ocaso colonial na persistência da mentira do Portugal de Minho a Timor.

O começo do fim é que está mais metido em nebulosas. E já nem recuo tanto que vá até ao paradoxo fatal de termos tido República porque a Monarquia estava a defender com frouxidão as posses coloniais. E de que restam hoje uns democratas maduros que, nos dias 31 de Janeiro, no Cemitério do Prado do Repouso no Porto, enfiam umas coroas de flores libertárias em homenagem aos sargentos de 1891 revoltados por mor da crendice no “mapa cor-de-rosa”, associando a romaria no calendário libertador. Não, não é caso para tanto recuar.

A chave das nossas desgraças mais recentes, na forma como nos desfizemos do Império inútil e impossível, está em época mais próxima e toca a principal peça a desfazer-se e que redundou num doloroso e trágico efeito de dominó. Ou seja, a “perda” da Índia.

A forma como tentámos conservar a Índia e a perdemos, é a vergonha maior do colonialismo salazarista. Salazar meteu ali toda a manha jurídica e diplomática, jogou em todos os tabuleiros, terminou exigindo a teimosia patética de estrebuchar em martírio o afrontamento aos ventos da história. Perdeu, e não querendo perder Angola e Moçambique, mentiu e impôs silêncio a uma das derrotas mais canhestras da história portuguesa. Silenciou tanto que o caso da Índia restou como um ponto branco no nosso conhecimento e memória. Mas como não há fim sem começo, também não há silêncio nem amnésia que impeçam o saber, desde que o engenho para aí esteja virado.

É uma felicidade na nossa recuperação de memória e no entendimento sobre o facto colonial, a edição da excelente obra de Maria Manuel Stocker sobre a perda de Goa, Damão e Diu (*). Que nos permite, antes do mais, perceber a fase da decadência colonial portuguesa bem como a lógica cínica e assassina-possessiva como Salazar crispava os dedos agarrados à posse colonial. Para mais, uma obra limpa pelo rigor e pela pluralidade de olhares. Um livro a não perder para aqueles que querem entender o caso colonial, agarrando a ponta do fio à meada.

(*) – “Xeque-Mate a Goa”, Maria Manuel Stocker, prefácio de António Barreto, Editora Temas & Debates.

Na imagem: um momento do grande culto que deixámos como herança maior da presença portuguesa em Goa – a adoração histérico-catolicista de um Milagreiro Espanhol (o jesuíta Francisco Xavier).
publicado por João Tunes às 17:27
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2 comentários:
De Joo a 9 de Setembro de 2005 às 16:29
Os meus cumprimentos à Autora.


De maria manuel stocker a 9 de Setembro de 2005 às 10:45
Obrigada .....
MMS


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