Quarta-feira, 7 de Setembro de 2005

OUVINDO MARIZA

mariza.jpg

O rio estendido com a Torre sentada ao lado, um palco, milhares em oração aos sons, uma Deusa a cantar. Foi assim ontem à noite em Lisboa junto à Torre de Belém. Ouvindo Mariza.

Mariza será hoje o que temos de nosso melhor. Uma voz, um estar, um sentir, um representar-nos que nos faz acreditar que somos, afinal, um povo culto, cordato e sensível, amante da beleza, procurando o melhor na comunhão. Capaz de dar tudo por si e pelos outros. Que gosta de fazer bem e bonito. Que não cospe nem deita lixo no chão, lê além do “desportivo”, do CM e do jornal à borla, não dá uma notícia de maus tratos nas crianças pelo menos uma vez por dia, não inveja nem se desculpa com os males dos partidos e dos políticos, nem sequer gosta de televisão. Foi assim que vi ontem o povo de Lisboa a ouvir e adorar Mariza.

Esta deusa com figura de gazela, com uma voz única bafejada pelo génio e pelo profissionalismo total, transportanto uma mistura fascinante de África crescida na Mouraria, em que a beleza e o porte da dignidade moçambicana embalam um corpo de deusa nossa e de cada um, em que a voz não se sabe se sai da alma ou do corpo, porque o seu som é físico no espiritual mais fado, muito fado, o bom fado, torna-nos melhores. Com a voz e a companhia de Mariza, até somos um povo bonito.



Adenda: Estive mais que bem acompanhado a assistir ao concerto. Com duas pessoas que me dão razão para existir. E mais outras dez mil que, não conhecendo, são parte da minha comunidade de pertença - pelo menos desse orgulho de termos dado não só Eanes, Soares, Cavaco, Sócrates, Santana e Jerónimo; nem apenas Figo, Herman, as gajas do Frota e o Pinto da Costa; tão pouco reduzidos a Eduardo Prado Coelho, Saramago e Vasco Pulido Valente - mas também, sobretudo, termos Mariza. Uma Mariza que é a compensação boa do retorno imerecido, numa vingança de génio no lugar da revanche, pelas venturas e desventuras dos guerreiros, negreiros, fodilhões, burocratas, padrecas, polícias, deserdados, cadastrados, boçais e outros mais, em que se misturou um punhado de boa e honesta gente, que marcaram Portugal na costa ocidental do Índico. Porque Mariza é um fruto bom dessa presença. Por mero acaso, revelado pela Artista, calhou-me ficar ao lado da sua Mãe - uma mestiça de porte digno e discreto, ostentando a evidente beleza moçambicana que tive sorte de conhecer (que faz de Moçambique, a par do Sudão, de Cabo Verde e da parte núbia do Egipto, um país com as mulheres mais bonitas do mundo), mais escura que o génio que trouxe ao mundo – e assim perceber melhor esse feitiço que Moçambique meteu no alambique da cultura muito nossa, porque herdada e misturada, de Lisboa. E Mariza falou disso e isso o canta – do feitiço da sua avó negra moçambicana que explica porque a temos. A sábia-feiticeira negra, no calor grávido de saberes de Moçambique, adivinhou-lhe xicuembo, dizendo-lhe que ela, Mariza e sua neta, tinha o cantar como destino. E esse sinal de xicuembo que veio de Moçambique até ao palco de Belém, li-o no rosto bonito e sóbrio da Mãe de Mariza, sentada ali mesmo ao meu lado. Foi então, bem acompanhado pelos meus e por mais dez mil, que eu senti a falta de quem eu gostava que ali estivesse também. Fez-me ausência, não te ter ali a conspirar cumplicidades, caro Carlos, meu amigo e nosso mestre em Xicuembo. Fica para a próxima, não é?
publicado por João Tunes às 12:52
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7 comentários:
De NETO a 8 de Setembro de 2005 às 22:37
Tudo verdade! Atestado com certidão pois também lá estive e vi como foi!


De Joo a 8 de Setembro de 2005 às 17:17
Pois é, Carlos, o que acontece é que o fado deu muitas voltas e vai por aí fora quase irreconhecível segundo os padrões passadistas do antigamente e incorporando novas sonoridades. Se ouvires a Mariza, verás que os seus dois primeiros CD's ainda trazem a "marca amaliana", por isso são bons mas quando se imita alguém soa sempre a imitação. No último CD (Transparente) dá-se o grito de Ipiranga da Mariza e o seu encontro com a maturidade e autonomia sonora. Ela agora canta com a sua voz e com o seu sentir. E em Belém ela ainda esteve melhor que no CD. Por outro lado, bolas!, a Mariza é moçambicana! Quanto ao resto do teu "coment", sabes bem que te pago na mesma moeda o privilégio de contar com a tua amizade. Grande abraço.


De Joo a 8 de Setembro de 2005 às 17:10
Olá Sónia. Mas permita que lhe diga que não se "perdem horas" a ouvir Mariza. No relógio da alma, "ganham-se" de certeza. E vá lá de animar a sua tia cota que anda em "maré baixa"! Beijo amigo.


De Joo a 8 de Setembro de 2005 às 17:07
Então querida Guida? Estamos a precisar de bebermos uns cafézinhos juntos, é o que é. Eu ligo um dia destes. Beijo.


De Carlos a 7 de Setembro de 2005 às 23:45
Há poucas horas atrás vi-me forçado a confessar que em música sou um pouco mais que zero, e dos zeros parados no tempo.
Talvez por isso, esse grande vácuo que se iniciou numa idade/altura em que me era impensável ouvir fado (oh verdes anos, tão injustos por vezes nas radicais 'poses') da Mariza e de outros nova vaga nada ou quase nada conheço - por exemplo, no recente Live Aid não vi uma imagem nem ouvi um som... de nenhum :-(
Esta a primeira razão poprque não fui a Belém, junto à preguiçosa desculpa da distãncia.
Agora fiquei a saber de duas razões para lamentar estes exageros eremitões: ouvi-la vale a pena (confio mais na opinião de amigos que sei de bom gosto, que de críticos, tv's e jornais e outros tantos que são pagos para debitar) e teria tido oportunidade de rever o João que, para quem não o sabe, revelo ser das pessoas com quem me sinto em permanente débito: sinto-me sempre encabulado ao pé dele, das poucas vezes em que aconteceu pois acho que lhe dou sempre pouco e trôpegamente do muito que lhe queria dar. Mas como entre amigos os silêncios falam e as asneiras são perdoadas... olha, ó meu! calo-me pois acho que já estou a falar demais e deveria era estar a ouvir a Mariza! ainda vou por aí, net, para ver se descubro alguma coisa dela que seja audível, free.


De Snia F. a 7 de Setembro de 2005 às 23:28
Caro João, tem toda a razão. A Mariza é um dos grandes valores do panorama mundial da música actual. Perco horas a ouvi-la. Um beijo.


De Guida Alves a 7 de Setembro de 2005 às 19:00
Bebo aqui, nas tuas palavras tão claras e transparentes, toda a beleza daquilo a que não pude assistir ao vivo. Ando em "maré-baixa" e isto foi a praia-mar que me alagou a alma de bem estar. João, o obrigado muito grande com um beijo de irmã.


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