Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005

A MINHA SINA COM OS LIVROS SAGRADOS

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Tendo acabado de falar aqui do patusco “livrinho vermelho” com os pensamentos de Mao tão usado em tempos idos por algumas hoje veneráveis figuras públicas, lembrei-me que, nunca tendo sido maoísta nem por lá perto, também possuí o “meu” que (sem o chegar a abrir) guardei religiosamente até o perder nas mudanças de casa pelos recaminhos da vida. O não o ter aberto não era problema porque aquele objecto tinha sido mais concebido, suponho, para esgrimir na mão e abaná-lo acima das cabeças que para leitura aturada. O tê-lo visto perdido isso sim foi problema pois ele tinha-me vindo parar às mãos por oferta empenhada e sentimental de um amigo muito amigo. E por isso, ao largo do sagrado político, oferta com essa marca tinha um lugar sacro nos meus sentimentos.

A história do meu “livrinho vermelho” conta-se rápido. Vindo do Porto e tendo voltado a estudar em Lisboa, aboletado na casa da minha irmã mais velha, apareceu-me um dia, esbaforido, um amigo do peito e companheiro de lutas fugido do Porto pela eminência de a PIDE lhe deitar mão. O meu amigo e companheiro queria dar de frosques, “dar o salto” como se dizia, zarpar para o estrangeiro escapando às manápulas dos esbirros policiais e, dois em um, baldar-se à incorporação militar malhando com os ossos na guerra colonial. Posto o problema à minha senhoria e irmã, ela não hesitou um segundo sequer e logo instalou o moço num canto adaptado com todas as serventias asseguradas. O amigo ficou trancado em casa e eu andei em bolandas para arranjar forma de lhe arranjar forma de “dar o salto”. Pelos vistos, bati às portas certas e, passada uma semana, o foragido já tinha passado os Pirinéus (deduzi eu por ausência de notícias sobre a sua captura). Passados anos, aparece-me o mesmíssimo sujeito, disfarçado com barbas e outros retoques, para me dar conta do seu sucesso na escapadela, agradecer a mim e à minha irmã a ajuda que lhe tinha sido preciosa. Disse que arranjara trabalho em França e na Bélgica e agora estava de regresso passageiro em “actividade clandestina”. Sabia que não devia fazer perguntas e assim cumpri. Agradecimentos feitos e trocados os competentes brilhos nos olhos e as palmadas nas costas, o meu amigo disse que estava com pressa e deixou-me como oferta em penhor da amizade e da ajuda um exemplar do “livrinho vermelho”. Nem lata tive para lhe dizer que não navegava naquelas águas (inútil seria porque já o devia saber). Aceitei e guardei-o religiosamente de acordo com o respeito devido para com as prendas de amigos. Claro que o voltei a encontrar (o amigo) depois do 25A mas essa seria parte desinteressante se a enxertasse aqui.

E como as conversas são como as cerejas, lembro-me agora de um segundo livro em que me sucedeu algo semelhante com o passado com o “livrinho vermelho”. Por intermédio de uns amigos, cheguei ao conhecimento e amizade com um jovem padre católico espanhol que por cá andava, um tipo progressista e assim a puxar para o guevarista. Tivemos longas conversas em que nos entendemos às maravilhas e em que o bom senso de ambos mandava que a religião ficasse fora da ordem dos trabalhos. Era um dos chamados “Padres de Burgos” que estavam à espera de embarque para missão evangélica em Moçambique e que depois, pela denúncia feita à guerra colonial, acabariam por ser expulsos pela PIDE e corridos a pontapé. Não o voltei a encontrar mas a Bíblia que ele me ofertou no dia em que embarcou para Moçambique ficou sempre guardada até se perder. Intacta de leitura inútil, mas guardada com o também devido respeito e consideração a este outro livro santo.

Moral da história: tenho sina de bons amigos me ofertarem livros sagrados, trato-os bem sem os gastar com leitura, acabo por os perder sem ponta de afronta ou de maldade.
publicado por João Tunes às 18:00
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