Terça-feira, 30 de Agosto de 2005

A PERSISTÊNCIA DO EXPEDIENTE KRUTCHOV (4)

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Gerações de antifascistas, militantes e simpatizantes comunistas portugueses partilharam a idolatria por Estaline. A forma como o fascismo enclausurava o pensamento, a informação e a comunicação contribuía para o reforço da cristalização mítica da crença que, no outro lado extremo da Europa, se passava o inverso de todas as nossas misérias, opressões e repressões, tudo o que aqui era preto lá seria branco (ou vermelho, se se preferir). Se Salazar apontava para Estaline como sendo o Diabo, Ele só podia ser o nosso Santo Maior e nosso protector amado. E, num quadro de pequenez, a identidade com a URSS e com Estaline (percebidas como a mesmíssima coisa) dava uma dimensão planetária ao que aqui se fizesse pela causa redentora que nos resgataria da miséria e da opressão salazarentas. O amor por Estaline era, primeiro, uma vingança espiritual contra o fascismo-catolicismo e, depois, um alimento de optimismo de que o poderio da URSS e a sábia e infalível liderança de Estaline que salvaram a URSS acabariam por salvar todo o mundo (nós incluídos). Assim, ser-se comunista e não se ser estalinista era um rotundo absurdo.

[Não tenho grande memória pessoal das marcas da época antes da morte de Estaline pois quando despertei intelectual e politicamente ele já tinha não só morrido como sido renegado pelos seus. Mas lembro os meus colegas de escola, no Barreiro, que transportavam as desforras de pais militantes no nome e que conseguiam, vá-se saber como, registar os filhos com nomes então mais que subversivos. Tive colegas com nomes sonantes como Vladimir, Lenine e até um com o nome mais famoso da terra – Estaline de Jesus - e que consumiu horas de persistência inútil ao padre e professor de Religião e Moral para que ele, em sacramento de crisma, desistisse do nome ímpio escandalosamente associado à figura de deus feito homem. O exótico daqueles nomes nada me dizia então mas fixei que o mais reguila e temido nas diabruras, entre todos a catraiada era, por mero acaso, o Lenine, restando-me na memória de ouvido o grito de aviso ecoado entre a garotada pacata quando esse terrível Lenine de calções nos queria varrer à bolachada e ao pontapé – “Fujam, vem aí o Lenine!”.]

Não surpreende que Estaline enquadrasse a iconografia oficial do PCP e que este reproduzisse o culto praticado em todo o mundo para com o “Zé dos Bigodes” (como era referido em público e em disfarce da alusão). E que o “Avante” lhe tenha dedicado páginas e páginas de adoração absolutamente religiosa e que tenha sido inclusivé eleito, por aclamação, “Presidente Honorário” de Mesas de Congressos clandestinos do PCP. Quando Estaline morreu em 1953, Cunhal estava preso e, com ele, grande parte dos seus dirigentes mais destacados. Dias Lourenço chefiou a delegação do PCP ao célebre e crucial XX Congresso do PCUS e coube-lhe, no regresso, trazer para o interior a novidade péssima e difícil de apresentar quanto mais digerir – afinal o “Pai dos Povos” tinha sido um grandessíssimo safardana, um criminoso até, sendo agora a hora de uma nova linha designada sob a suspeitíssima designação de “coexistência pacífica” entre os sistemas socialista e capitalista. Para um país fascizado e a contas com uma terrível repressão, essa da “coexistência pacífica” só podia soar a abdicação a caminho da traição. Mas uma coisa se mantinha como antes – a falta de margem para que o PCP (um pequeno e desprotegido Partido a contas com um aparelho repressivo implacável) desalinhasse com a URSS e com o PCUS. E o V Congresso do PCP realizado em 1957, com Cunhal ainda na prisão, não pôde fazer diferente que realinhar as suas teses com a nova moda oficialista da “coexistência pacífica” (com impacto num conceito mais aberto de unidade antifascista a praticar na política portuguesa de resistência) e também autocriticar-se da sua participação no “culto da personalidade” a Estaline e admitindo-se mesmo alguns excessos miméticos cometidos no incenso à figura de Cunhal na agitação que era feita para exigir a sua libertação da cadeia. Para a história, esse Congresso seria depois marcado na memória política e ideológica do PCP como o “Congresso do desvio de direita” e mancharia, para sempre, o currículo partidário de figuras destacadas que nele participaram e aprovaram as suas teses – Dias Lourenço, Pires Jorge, Pedro Soares, Octávio Pato e outros (que, mais tarde, bem labutaram para se redimirem desses “pecados krutchovianos”).

Com a fuga de Cunhal e outros destacados dirigentes do PCP do Forte de Peniche em 1961, verificou-se uma guinada “para a esquerda” (tamanha que, mais tarde, seria condenada como um “desvio de esquerda”) e a consagração formal de Cunhal como Secretário Geral do PCP. Quando do VI Congresso do PCP realizado em Kiev em 1965, já Brejnev havia tomado o lugar a Krutchov e “normalizado” o PCUS com a ascensão dos neo-estalinistas encabeçados por Suslov, os “desvios de direita e de esquerda” foram exorcizados no PCP e o “Rumo à Vitória” consagrado como nova cartilha revolucionária dos comunistas portugueses. A paz ideológica do “estalinismo sem Estaline” pacificou a vida interna e retomou-se a identidade fraternal e ideológica PCUS-PCP só perturbada (e de que maneira), anos mais tarde, quando um tal Gorbatchov resolveu retomar os “disparates krutchovianos” com os resultados bem conhecidos – falência do PCUS e da URSS e da maioria dos seus satélites e, a nível caseiro, essa paródia de indigência política e partidária que é uma “figura menor” como Jerónimo de Sousa ser SG do PCP.
publicado por João Tunes às 23:48
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4 comentários:
De Joo a 2 de Setembro de 2005 às 23:16
Conformista serei, conservador tento-lhe evitar a tentação (Quem ainda não publicou um livro que atire a primeira pedra). Agora a sério: estou a pensar nisso mesmo! Abraço.


De RN a 1 de Setembro de 2005 às 01:22
ACho que devias seriamente pensar no livro. Ou nos livros. A blogosfera é muito interessante e sem dúvida importante mas pelo menos por enquanto o papel ainda não é totalmente substituível.Vá, não sejas conformista.


De Joo a 31 de Agosto de 2005 às 21:39
Tens razão, Raimundo. Estes não são lençois que se estendam na blogosfera. Mas é assim: blogar é um meu processo de compensação de frustações acumuladas e eu estendo o lençol para me compensar na auto-estima de não ter sido capaz de escrever um livro ou livrinho que fosse. Como o livro ou mesmo opúsculo nunca irá aparecer, o mais provável é que continue com os posts-lençóis, perdendo audiências e paciências. Por essas e outras é que, para não desanimar de todo, extirpei os contadores de visitas ao blog. Abraço.


De RN a 31 de Agosto de 2005 às 01:46
Já passa da uma e isto afinal é grande como um livro. Bem, leio um post agora e deixo o resto para amanhã.
Um abraço.


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