Terça-feira, 30 de Agosto de 2005

A PERSISTÊNCIA DO EXPEDIENTE KRUTCHOV (3)

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Que dos posts anteriores, com o mesmo título, não fique a ideia que não consideramos de realce as efectivas e profundas mudanças na política e na sociedade soviéticas operadas sob o mando de Krutchov. De facto, é justo reconhecer, a Direcção vencedora do XX Congresso do PCUS procedeu a rectificações profundas na economia, no respirar social e no relacionamento internacional. Embora cheia de zigue-zagues (as maiores recaídas: Hungria 1956, Berlim com o Boicote à sua zona ocidental mais o Muro e o tremendismo irreponsável da crise dos mísseis em Cuba em que o mundo, através de uma provocação infantilizada, nunca esteve tão perto da sua completa destruição nuclear), a gestão Krutchov representou um abanão de massa crítica face ao descalabro e caminho para o abismo da sociedade soviética acumulada na fase mais decadente e esquizofrénica da tirania de Estaline.

Em nome da miragem do regresso à “pureza leninista”, os olhos, embora semicerrados, dos dirigentes soviéticos foi capaz de perceber que o sistema soviético tinha-se esgotado na sua capacidade de desatar os nós dos seus sofismas. Uma industrialização conduzida através de trabalho escravo, a destruição agrícola e aniquilamento do campesinato, o Plano transformado numa montra de mentiras e indutora da sua multiplicação, uma massa trabalhadora desmotivada e com propensão para a autoflagelação do pessimismo e da desesperança, uma intelectualidade servil e mediocrizada, uma polícia gigantesca esgotada a assassinar e a acumular corpos no Gulag, mais as perdas imensas em homens e em meios como herança da II Guerra Mundial, reduziram o império soviético a um gigantesco aparelho militar, um imenso campo colonial para dominar (as recentes “conquistas revolucionárias” na Europa Oriental), colocaram os dirigentes do PCUS perante a herança ingovernável deixada por Estaline. No preciso momento em que, mercê sobretudo do Plano Marshall, o “inimigo capitalista e imperialista” se recompunha das feridas da guerra e incorporava na indústria e comércio civis os avanços da tecnologia militar catalizados pela guerra, relançando o capitalismo numa nova fase de pujança. Entretanto, Estaline tinha fundido (soldado, melhor dizendo) o Partido com o Estado e sem resolver o problema de um, não havia solução possível para os muitos problemas do outro. E dessa fusão, os maiores males (os que bloqueavam eventuais superações) estavam em que, ao fundir-se o Partido com o Estado, cindiu-se a Sociedade do Estado, a ideologia e a política comandavam todas as decisões económicas e transformavam-nas em actos de prestação de contas partidárias (tendendo à manipulação e corrupção para as tornar susceptíveis de conservação de postos e alcance de promoções), o burocratismo e o parasitismo passavam do Partido para o Estado e do Estado para o Partido, como ratazanas numa rede de esgotos.

Estaline deixou uma obra incapaz de viver para além de si (como parece ser, hoje, o desígnio paranóico-suicidário de Fidel Castro). A própria orgia sanguinária tinha-se exaurido e, nos seus últimos tempos, Estaline já se dedicava a paranóias mesquinhas e periféricas – fuzilar médicos e judeus, além de jogar sadicamente com o sabido pânico de Béria em fazer companhia no cemitério aos seus antecessores Iagoda e Iejov. O centralismo paralizava as administrações locais e regionais, enquanto estas enganavam o centro planificador. As normas do Plano eram meras representações de mentiras construídas para não se cumprirem. Enquanto o Ocidente, o inimigo capitalista, navegava a todo o vapor e não brincava no trabalho da “guerra fria”, o que implicava uma capacidade civil de competir com a economia capitalista e um aparelho militar suficientemente poderoso para colonizar um vasto império e ser elemento de equilíbrio dissuassor face à pujança do militarismo americano impante do seu poderio atómico.

Krutchov tentou remediar o irremediável (e a prova deifinitiva de que, afinal, o remédio também era mortal, só foi apresentada por Gorbatchov vários anos mais tarde). Não venceu o Problema mas adiou-o (e tê-lo conseguido não foi mérito pequeno no quadro clínico-político daquela URSS a que arrebatou o comando). Pela manha da “política da coexistência pacífica” em que jogou um toque-e-foge com os americanos, pela descompressão obtida pelo fim do Gulag, por colocar termo ao método da eliminação física nas lutas entre dirigentes, por uma espécie de direcção colectiva no Partido e no Estado (embora subordinada a uma autoridade suprema), o adiamento ideológico do mito da construção do “homem novo” e relegando o alcance da sociedade comunista para as calendas. O arco mobilizador do pôs-estalinismo projectado por Krutchov foi a miragem de que, reformas feitas, a URSS iria ultrapassar industrial e tecnologicamente o Ocidente, o povo soviético tinha finalmente direito ao bem estar e mesmo a qualidade de vida, a agricultura seria tratada como uma actividade com necessidade de apoios e de soluções, os intelectuais podiam dedicar-se aos seus misteres desde que não atacassem a Pátria, o Estado e o Partido. Propagandeando-se que, na fase avançada desta emulação entre socialismo e capitalismo, os trabalhadores do Ocidente, rendidos ao progresso e bem-estar soviéticos, imaginando-os como não tardando a ser o povo mais feliz à face da terra, desatariam a imitar os seus irmãos da Checoslováquia e da RDA e a pedirem protecção e mando aos líderes esclarecidos do Kremlin na bendita via de toda a Humanidade para o socialismo e o comunismo. E, sabe-se, a propaganda sempre foi a grande arte mortal na difusão e conservação da ilusão comunista, em que, a par da capacidade de enganar outros, vem a factura de se morrer nas mãos das mentiras construídas e acumuladas. Porque O Partido não condena a Mentira que ajuda O Partido, só se queixando da Mentira quando esta mata O Partido.

Depois de um arremedo de recuperação (de que o lançamento do Sputnik é a cereja em cima daquele gigantesco bolo de arroz), tudo se foi esboroando e regressando ao impasse. Os vícios congénitos do sistema mostraram-se mais fortes como anticorpos que como corpos – o Partido continuou a esmagar o Estado e a Sociedade, degradaram-se (pelo arrivismo, agora transferido parcialmente da progressão partidária para a progressão na cadeia de gestão) os comportamentos e as mentalidades dos quadros que se revelaram mais amantes da corrupção que do cumprimento das normas. Krutchov asfixiou-se na incapacidade de consumar as reformas e já derivara para as pazádas voluntaristas (desastrosas sobretudo na agricultura). Era a vez do apelo de mudança pelo sobressalto brejneviano (reincorporando o estalinismo partidário e que, num primeiro elan, veio vitalizar a dinâmica económica ao baralhar e dar de novo) e depois cristalizado na fase de “estagnação” que, mais tarde, outra vez demasiado tarde, alarmaria Andropov e levaria a Gorbatchov. Um caso de agonia prolongada que, espantosa e felizmente, deu em implosão. Neste trajecto, Krutchov foi um voluntarioso misto de feiticeiro e ilusionista, contaminado pela incapacidade e impossibilidade políticas e económicas de atingir um sucesso além do remendo e do adiamento, pois Estaline tinha soldado o regime ao seu túmulo. Para a história dos dias de hoje, da obra de Krutchov restam os focos de ilusão que aqui e ali espalham e alimentam o fogo fátuo da quimera sobrevivente do “estalinismo sem Estaline”. Alguma coisa, de qualquer maneira. Demasiado, talvez...
publicado por João Tunes às 17:35
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