Quarta-feira, 24 de Agosto de 2005

O PRETO CABOVERDIANO

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A não perder, a leitura do naco de prosa de José Luís Hopffer Almada que o Rui Guilherme em boa hora transcreveu.

O texto enfia-nos a pensar através da profundidade dos subterrâneos ramificados do racismo e das suas subtilezas gradualistas. E, nesse sentido, a vermos para além da dicotomia mais exposta mas menos esclarecedora da dualidade preto/branco. Também que muitas vezes a essência dos preconceitos é resistente e molda-se a novos estares e evoluindo na luta entre corpos e anticorpos.

Poderia parecer que o nível da “mestiçagem” caboverdiana, ali levada a cabo numa intensidade relativa sem paralelo na restante África colonial, fosse um indício de enfraquecimento do preconceito racista por via da alcova. E tanto o pareceu que esse mito alimentou o embuste persistente da chamada “luso-tropicalidade” e que funcionou como uma das poucas âncoras ideológicas da propaganda pró-colonial de Salazar. Além de alimentar a miragem elitista de casta de uma afirmação “crioula” (e ao ser uma adaptação conformista infra-caboverdiana de projecção de uma subalternidade imaginada como substituta do poder colonial, com um poder de rigidez e de persistência na própria cultura caboverdiana, sobretudo ao nível das camadas letradas e introduzidas na estrutura intermédia de domínio classista).

O texto de José Luís Hopffer Almada, ao evidenciar o papel histórico e persistente da entidade preto caboverdiano, clarifica como, afinal, na sociedade mais mestiçada, o racismo anti-preto se manteve, se reificou e se transformou num fenómeno mais doloroso e difícil de ultrapassar que o conflito racista em sociedades estratificadas em menos “prateleiras intermédias”.

Da minha curta experiência de conhecimento de Cabo Verde foi exactamente esta constatação o que mais me impressionou no contacto com a sua paisagem humana e social. E isso porque, para mais, conheci Cabo Verde com este País a acumular já muitos anos de independência. O que demonstrou, e me espantou, como a marginalização do preto caboverdiano resistia à construção da nova realidade pós-colonial, demonstrando o longo caminho ainda a percorrer (cultural, político, social) para que se esbata o “domínio crioulo” como uma herança persistente da presença racista-colonial no domínio de Portugal sobre uma parte de África. E do poder de persistência das sub-culturas segregadas pelo racismo (mesmo que sob a aparência de provir de uma gestação centrífuga).
publicado por João Tunes às 13:06
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