Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

CLEPTOBLOGANDO

embarque.JPG

Se feio é roubar, também se rouba por bem ou por reconhecimento. No último caso, até se pode roubar por gosto. É o caso. Com o gosto de transcrever:

“São de toda a parte, de remotos lugares esquecidos de deus e dos homens, pequenos pontos negros no mapa da nação que os chama a defender o império, angola é nossa, portugal do minho a timor. Ao longe todos iguais, pescadores sem redes, lavradores sem enxada, mole esverdeada encurralada entre o rio e as grades e a polícia militar e a banda que toca marciais marchas para elevar a moral.

Boina castanha cobrindo o cabelo rapado, mochila às costas, cigarro nervoso queimando as pontas dos dedos, sorriso forçado para benefício dos que ficam, mãe, pai, namorada, amigos. Não chores mais minha mãe, vai ver que não me acontece nada, Leva este santinho que o senhor abade benzeu, não te esqueças de rezar o terço e que deus te proteja e guarde meu filho, Espera por mim meu amor, quando voltar casamos, Promete que me escreves todos os dias e vê lá não me esqueças tu, Cuide das vacas meu pai, Dá cá um abraço rapaz, Adeus rapazes, vocês tiveram sorte, Sorte tens tu pá, dizem que as pretas se pelam por um branco e são boas como o caraças.

O corneteiro toca a formar, pelotão, companhia, ao longe discursa uma farda, pelo menos parece só uma farda, não se vê o homem dentro dela, só o faiscar das medalhas e o dourado dos galões. Os altifalantes gritam palavras, valorosos infantes, dom afonso henriques, dom nuno álvares pereira, os valentes de mouzinho, os heróis de la lys, pátria, nobre missão, se necessário com o sacrifício da própria vida.

Meia-volta, volver, ordinário-marche, sobe-se o portaló do navio, niassa, vera-cruz ou outro qualquer, tanto faz, já se vai enchendo o bojo do monstro que vomita rolos de fumo cada vez mais grossos e negros, anunciando a partida. Nos conveses amontoam-se os corpos, luta-se por chegar à amurada, para se chegar a um último adeus aos que ficam.

No cais não se reconhece ninguém, só lenços brancos acenando, choros e gritos e ranger de dentes, e a banda que continua a tocar, e os capacetes brancos da polícia militar, ou serão mais lenços. Chegam a bordo as senhoras do movimento nacional feminino distribuido cigarros e bentas imagens e aerogramas e apertos de mão, cheirosas senhoras bem, filhas de famílias bem, esposas fidelíssimas de senhores bem e mães extremosas de meninos bem a estudar em londres ou com adiamento de incorporação a beber bicas no nicola e a ler sartre. Piedosas senhoras bem comprando bilhetes de lotaria da taluda do reino do céu, anda à roda no dia do juízo final, E tu que fizeste minha filha, Distribui cigarros e bentas imagens e aerogramas e apertos de mão, senhor.

Larga amarras o navio afastando-se lenta e inexoravelmente de terra, adeus cais de alcântara, adeus ponte salazar, adeus farol do bugio, adeus, adeus, até ao meu regresso. Roncam mais forte as entranhas da nave, mais negro e espesso o fumo que expele, entrando mar adentro, o mar salgado das lágrimas de mãe que o poeta cantou.

Quanto dura a viagem, Um mês, dizem os lavradores sem enxada, riem-se os pescadores sem redes, mais feitos a estas coisas do mar, só o barco é maior que as ondas são as mesmas, Quinze dias com escala na madeira. Quinze dias de balanço, para cima e para baixo, para cima e para baixo, quinze dias de enjoo e diarreia, até todo o navio cheirar a merda e todos os homens cheirarem a vómito, suor e punheta, pela primeira vez irmanados oficiais, sargentos e praças, a outra será por entre o ondular do alto capim e os balanços do unimog, quando o medo for a causa da náusea e da diarreia, que todos nascemos e morremos do mesmo modo e nas misérias da carne todos os homens são irmãos. Para matar o tempo, que não é ainda tempo de matar, jogam-se intermináveis jogos, inventam-se maleitas, forjam-se acidentes, em tempo de guerra não se limpam armas, qualquer estratagema serve se o resultado dor baixar à enfermaria, ou, derradeira esperança, voltar a casa como inapto, ou tão só não ir para o mato, esse matos de que os velhinhos falam com mistério e sobranceria, Como é o mato, conte lá nosso primeiro, Vocês depois vêem, para se borrarem de medo já chega quando lá estiverem...

Quase imperceptivelmente o tempo vai aquecendo e uma madrugada sussurra-se por todo o navio, Chegamos, chegamos a áfrica, e todos se levantam para ver essa terra remota e estranha que lhes dizem também ser portugal e estar ameaçada. Ameaçada por um bando de pretos mal agradecidos, cães que mordem a mão do dono, de quem os tirou da barbárie e lhes levou deus e civilização, os turras. Cuidado com os pretos, dizem-lhes, Cuidado com os pretos, não lhes dêem confiança que qualquer filho da puta dum mainato pode ser um turra disfarçado, um espia. Se abusarem arreiem-lhes e cuidado com as pretas, são todas umas putas, animais com cio, cadelas saídas, ponham-se a pau com os esquentamentos.

E amanhece em áfrica e sobem a bordo cheirosas senhoras bem, piedosas senhoras bem, só os vestidos são mais leves e a pele mais morena, uma banda toca marciais marchas, desta vez não há lenços brancos a acenar, só os capacetes da polícia militar.

O corneteiro toca a formar, pelotão, companhia, desce-se o portaló do navio e gritam-lhes, Toca a despachar seus checas de merda, toca a subir para as berliets.

No cais não se reconhece ninguém.

.

Eu não me lembro, não vivi a guerra, só sei de ir à escola e fugir para o rio e roubar mangas e papaias. Talvez não tenha sido bem assim, mas é assim que eu recordo as palavras dos que lá estiveram e me contaram. Do resto só sei o que li, porque os que me contaram, chegando aqui, puxam do baú da memória de velhas estórias de copos e putas e impalas abatidas a tiro de g3 e de súbito recordam o 29, O gajo de mangualde ou será que era de manteigas, O gajo era lixado para a paródia, uma vez íamos na picada e ..., e embaciam-se-lhes os olhos, embarga-se-lhes a voz e emudecem. E eu não insisto.

Talvez um dia, quando o peso dos anos e o tempo tiverem amainado a sua dor e sentirem necessidade de revelar aos seus netos o que aconteceu, talvez nesse dia me contem e eu então contarei, para que se não esqueça...”


Obrigado Magude. E desculpa lá este clepto-impulso.
publicado por João Tunes às 14:56
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