Segunda-feira, 18 de Julho de 2005

SPÍNOLA (2)

spinola.copy[1].jpg

Encontrei-o logo no dia seguinte. Dizer que o encontrei é uma forma bem forçada de expressão. Desfaça-se o possível equívoco – eu formei na parada do Quartel de Adidos em Bissau e ele arengou às tropas do cimo de um palanque. O calendário marcava Maio de 1969.

Os dias entre duas paradas tinham sido passados a navegar pelo Niassa. E foi a única vez que fiz um cruzeiro fardado e entre duas paradas. A parada de partida no Cais de Alcântara com um general que me pareceu decrépito e histérico a apelar à altivez da nossa missão patriótica e acompanhado por senhoras bem penteadas do Movimento Nacional Feminino a presentear os tropas com maços de tabaco. Depois foram cinco dias em bebedeira non-stop na messe de oficiais, enquanto os furriéis tratavam dos soldados encafuados nas camaratas do porão e a vomitarem enjoos e cervejas. Percebemos que chegáramos à Guiné porque a água tornou-se barrenta e começou a cheirar terrivelmente mal, vimos pretalhada a correr pelo cais e sentimos que já não se podia beber mais e era hora de agarrar a G3 porque o inimigo estava mesmo ali. Depois vimos brancos dos nossos a acenar-nos do cais, vestidos de camuflados de cores desmaiadas e a insultar-nos – “cabrões de periquitos, venham aqui malhar com os cornos que nós queremos voltar para casa”. E percebemos que, enquanto o barco atracava, o melhor era ir continuar a bebedeira interrompida. Estávamos fodidos, esperava-nos pretalhada e brancos que nos queriam no lugar dos ossos deles. E o whisky não faltava. Depois, foi olhar o escuro com cara de estúpido, amouchar calando, até à parada do dia seguinte. Aí seríamos soldados ao serviço do Brigadeiro Spínola enquanto o Niassa regressaria com restos patrióticos para o Cais de Alcântara. Ele mesmo, o Grande Chefe, nos daria as boas vindas.

Perfilados e tristes de medo, mal adaptados ao papel que ali nos esperava, estávamos nós em cima de uma parada de alcatrão de Bissau. O Brigadeiro apareceu e falou. O gajo era feio como o caraças. Tinha uma cara grande demais e umas beiçolas descaídas. E usava monóculo pendurado num olho, à moda prussiana. Pendurava os gestos no ar, fazendo pausas de actor, segurando um pingalim como símbolo da aristocracia da cavalaria. E fez o seu discurso de merda:

“- Soldados, fala-vos um soldado como vós. Vêm defender a Pátria na terra portuguesa da Guiné. Dou-vos as boas vindas. E, fiquem certos, se algum de vós tiver a infelicidade de ir parar ao hospital, o vosso Comandante, um soldado como vós, estará ao vosso lado. Viva Portugal.”

Ora porra para o Caco que já está a falar em hospital e o caraças. Deu para lhe conhecer a fronha. O resto seria aguentar. E tentar voltar. Sair da merda da Guiné.

Voltei a encontrá-lo uma ou outra vez no mato. O Caco descia do helicóptero, normalmente sem aviso prévio, vestindo o seu camuflado impecávelmente ataviado e engomado, com as luvas, o pingalim e o monóculo. Cumprimentava o pessoal mesmo os que estivessem em cuecas, reunia-se com o Comando e voltava a desaparecer no pássaro de ferro.

Passados os dois anos de comissão, a Guiné já não me cheirava mal, a pretalhada não me assustava, nenhum soldado antigo tinha lata para me insultar porque eu já usava camuflado bem gasto (e, porra, tinha estado em Guileje!). Vi-me livre do Caco, entretanto promovido a General. Em 1971, fazendo o espólio num quartel da Ajuda, pé firme no regresso, senti-me feliz porque nunca mais ia voltar a meter os pés na Guiné nem ver o General com poses de opereta revisteira.

Não é de estranhar que quando voltei a ver a fronha de Spínola na televisão a presidir à Junta de Salvação Nacional, na noite de 25 de Abril de 1974, caído o regime odiento, a minha reacção tenha sido:

“- Foda-se! O Caco outra vez?” (voltando a falar à maneira da tropa)

Depois foi a revolução que todos sabem e o jeitão que o General toleirão e megalómono deu para que a revolução avançasse a todo vapor. Por cada asneirada do Caco, era uma etapa que se queimava com o socialismo cada vez mais perto. Então, só então, perdi-lhe a aversão. Passou a ser, apenas, uma embirração com estima alegre. Porque, por cada asneira do Spínola, era mais um cravo pendurado na Utopia. Depois, ai a falta que fez à classe operária a perda das asneiras spinolistas! Sem o Caco, a revolução foi-se. e quando o meteram em Marechal já não serviu para nada.
publicado por João Tunes às 17:13
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2 comentários:
De marujo a 19 de Julho de 2005 às 13:33
pois a mim, o Caco não me diz nada. agora, a Guiné já é outra história. gosto do sítio, gosto do cheiro, gosto do calor, gosto das pessoas. a pretalhada é gente boa, embora a ignorância lhes impeça a concretização dos sonhos. são manipulados pelos filhos da puta do costume, mas se nem nós nos livramos deles, e somos europeus civilizadíssimos, como conseguirão eles...
tenho saudades da Guiné. desde 1984, já por lá andei alguns anos... 89, a guerra civil de 98... voltei em 99 e, agora, em 2004. e voltava agora, se pudesse.


De Carlos a 19 de Julho de 2005 às 00:14
Esse já nasceu 'Marechal'. Lixado foi tê-lo gramado até lá chegar...


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