Segunda-feira, 18 de Julho de 2005

TEIMOSIA?

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Um artigo de Pilar Rahola (*):

”Parecemos adolescentes à moda antiga, quando chegávamos inexperientes, inocentes e vulneráveis à perda da virgindade. Acumulávamos quatro lições de sexo aprendidas clandestinamente à boca pequena, algum apalpão de esquina e umas quantas verdades absolutas que só serviam para inchar o peito e parecer que estávamos preparados. Depois daquilo, nada do aprendido servia e tudo tinha que voltar a ser perguntado. A perda da virgindade era, sobretudo, uma queda do hímen mental, a porta de entrada da maturidade. Se me permitem a exótica metáfora, começa a ser hora de deixar para trás esta adolescência colectiva que vivemos com santa ingenuidade, abandonar os quatro tópicos simples que nos serviram para obter cómodas respostas a incómodas perguntas, e brindar pela queda da inocência."

"Já nos mataram muito, tanto que algumas sandices que ainda se ouvem nos microfones da correcção política resultam algo mais que grotescas: são um inequívoco exercício de irresponsabilidade."

"A perda da virgindade. Comecemos pelo paternalismo que ainda explica o fenómeno do terrorismo islâmico como se fosse uma rebelião desesperada dos párias do mundo. Quantas vezes pudemos ler ou ouvir, em sisudas e prestigiosas tribunas, que os homens-bomba que despedaçam pessoas nos restaurantes de Haifa ou nos autocarros de Jerusalém são heróicos resistentes que não têm nada a perder? Não falamos ainda de “resistência” quando nos referimos à estratégia terrorista de Al-Zarqawi no Iraque? Não projectamos uma visão compreensiva da “luta armada” dos grupos islamitas chechenos? Não mostramos uma velada justificativa, pela via da culpabilização americana, de alguns ataques terroristas? Este paternalismo, sem dúvida consequência da nossa já gasta má consciência, decorado com umas gotinhas de estética revolucionária e reforçado pela óptica antiamericana que contamina a visão europeia, este paternalismo, dizia, é, depois do 11 de Setembro, do 11 de Março e da matança de Londres, o obstáculo que mais pateticamente distorce a nossa capacidade de análise. Por trás do atentado terrorista, por trás do suicida não há um desesperado, mas uma densa rede logística, económica e ideológica que vampiriza as causas legítimas, fanatiza até ao puro niilismo os seus seguidores e usa as suas mentes anuladas para o objectivo superior da revolução islâmica. Os verdadeiros resistentes palestinianos não são os integristas do Hamas, que capturam crianças de oito anos para convertê-las em terroristas-suicidas e cujas milionárias fontes de financiamento estão em algumas fortunas que se valorizam em Kuala Lumpur e nos escritórios opacos de algumas ditaduras do petrodólar. Os resistentes palestinianos são os que lutam democraticamente pela sua causa, enfrentando, inclusive, o fanatismo integrista. Os verdadeiros resistentes iraquianos não são os degoladores de pessoas, mas os que foram massivamente votar apesar da ameaça de morte. Não são desesperados, não são pobres, não são libertadores, não são resistentes. São militantes de uma ideologia totalitária, profusamente regada pela economia, perfeitamente instalada nos conflitos do mundo e cujo objectivo último é a destruição dos valores que garantem a convivência e a liberdade. Deixemos, pois, de fazer de imbecis olhando-os como se fossem os substitutos do nosso Che Guevara adolescente. Sem nenhuma dúvida, como fez em tempos o nazismo, declararam-nos guerra."

"E antes que alguém procure algum vislumbre de incorrecção moral no que afirmo, recordarei o que tanto escrevi:"

"Não nos declarou a guerra o islão, nem é um choque de civilizações ou religiões. É a declaração de guerra de uma ideologia que utiliza o islão, sequestra-o e tenta apropriar-se dele. De facto, o integrismo islâmico é tão inimigo do Ocidente como é inimigo do direito dos cidadãos islâmicos de viver em liberdade."

"A perda virgindade também implica a superação do discurso doméstico, como se a al-Qaeda fosse o resultado de políticas externas concretas e sua solução tivesse a ver com a bondade ou maldade das ditas políticas. Se lhes preocupa a causa palestiniana, porque começa o 11 de Setembro a gestar-se em plenos acordos de Oslo? Se lhes preocupava a participação espanhola no Iraque, porque acabam de prender 16 muçulmanos, cinco dos quais já haviam feito o juramento do martírio? Por que filmaram as torres de Barcelona, se já éramos bons? E por que foi preparado o 11 de Março dois anos antes da guerra do Iraque? Crer, ao estilo do chauvinismo francês, que “portar-se bem” implica “sair dessa” é não entender nada e constatar algo: que somos muito débeis e que conhecem as nossas fraquezas, entre elas a reiterada e doentia visão do próprio umbigo."

"Começou há muito, nos anos 20 do século passado, com os fundadores da Fraternidade Muçulmana do Egipto, cuja ramificação chegaria à criação de um Governo integrista no Sudão, e depois do Hamas de Yassin e à própria estruturação da al-Qaeda. Há muito que são amparados por governos que se sentam na ONU e por fortunas que crescem nas bolsas internacionais. Fanatizam muito, contaminando milhares de pessoas. E matam desde há muito, mas decidimos não vê-los. Decidimos não ver como matavam dezenas em Buenos Aires faz mais de uma década. Afinal, eram judeus. Não ver quando matavam em Nairobi, afinal eram americanos. E não os vimos nem em Bali, nem na Turquia, nem em Beslan, nem em Jerusalém. Certamente, não os vimos em Nova York. E só quando nos mataram em Madrid começamos a descobrir que isto era connosco, mas aprendemos as lições? Ou continuamos com o discurso paternalista que explicava em termos épicos, domésticos e simples as suas façanhas terroristas? Entretanto estão os ianques para nos divertir e para explicar a maldade do mundo, para que nos preocuparmos com a estrutura terrorista que nos ataca? Agora a morte viajou de metro por Londres e, outra vez permanecemos desconcertados e boquiabertos. Até que alguém, bondoso, deu uma resposta: é por culpa da guerra do Iraque, e respiramos mais tranquilos. Não há nada como ter respostas simples para poder aplacar as inquietantes perguntas que não queremos fazer. É realmente terrível o que ocorre: estão a matar-nos na nossa própria casa, socializando o terror para destruir o nosso sistema de liberdades, e nós continuamos entretidos confundindo-nos com o inimigo. Mais do que adolescentes virgens, parecemos autênticos imbecis.”

(*) Pilar Rahola, jornalista e escritora, foi deputada da “Esquerda Republicana da Catalunha” no parlamento espanhol e vice-presidente da Câmara de Barcelona. Este artigo foi originalmente publicado no diário espanhol El País no seguimento dos atentados de Londres.
O texto transcrito foi copiado do Rua da Judiaria.
publicado por João Tunes às 15:52
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2 comentários:
De Joo a 23 de Julho de 2005 às 23:25
Obrigado pela visita e pela indicação de link.


De Rulio a 22 de Julho de 2005 às 11:18
ARTICULO MARAVILLOSO. Como la mayoria de los que escribe. en su web, www.pilarrahola.com, hay articulos extraordinarios sobre el fenomeno del terrorismo. Es una periodista lucida. Vivo en Estados unidos, soy hispano y hace mucho que la leo gracias a prensa hispana de Miami que la reproduce. Por cierto, tiene muchos articulos publicados al portugues. Saludos desde NY.


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