Sábado, 1 de Outubro de 2005

DA “FRIGIDEIRA” À “HOLANDINHA”

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No Campo de Concentração do Tarrafal, campo de morte lenta do católico-fascismo luso que referi em posts anteriores, utilizaram-se duas formas de tortura-castigo nas situações em que os carcereiros decidiam incrementar sadicamente as condições prisionais de um preso. Na primeira fase, para prisioneiros “portugueses”, usou-se a “Frigideira”. Na segunda fase, em que o campo foi reaberto durante a guerra colonial, para presos africanos, recorreu-se a um sucedâneo chamado de “Holandinha”.

Sobre a “Frigideira”, remeto para a descrição de Edmundo Pedro, que foi prisioneiro no Tarrafal:

“Era uma cela em cimento armado, um cubo com uma porta em ferro, uma frestazinha em cima, o tecto em cimento e não tinha telhado. Era um forno autêntico, num clima tropical… era sufocante… havia dias em que a temperatura se devia aproximar dos 45 graus… passávamos os dias a suar, tínhamos de andar todos nús. À noite aquilo condensava e caía em cima de nós, parecia um chuveiro…”

Depois da reabertura do Campo para os militantes anti-coloniais, que durou até 1974, a tortura-castigo passou a ser a “Holandinha”. O nome atribuído tinha a ver com a sugestão sádica de ser atribuída como estatuto de “bom nível de vida”. Estando o Campo localizado em Cabo Verde, usava-se como referência o facto de a colónia imigrante entre a diáspora caboverdiana com melhor nível de vida nas remessas para os seus familiares que ficavam no arquipélago era a que trabalhava na Holanda. Logo, “Holandinha” era um termo que, além da afectividade cínica pelo uso do diminutivo, sugeria abastança e bom estatuto social. E o que era a “Holandinha”? A sua concepção era idêntica à da “Frigideira” (uma caixa de cimento, sem janelas nem telhado e com pouca ventilação) mas colocada no interior, dentro da cozinha e mesmo ao lado dos enormes fogões onde os alimentos eram confeccionados (primeiro, os melhores, para os pides e os guardas; depois o “rancho” para os presos). A tortura consistia em que ao preso enclausurado na “Holandinha”, além do efeito do calor pela proximidade dos fogões, sem ter direito a alimentação, recebia, pelo ralo respiratório, os odores da sucessão de cozinhados ali ao seu lado. Assim, os presos metidos na “Holandinha”, além de sujeitos a temperaturas altas e sem capacidade de movimentos, alimentavam-se de cheiros culinários e, inclusive, “beneficiavam” de partilha olfáctica dos petiscos confeccionados para os pides e restantes carrascos.

Imagem: Edmundo Pedro, na companhia de antigos presos angolanos (da segunda “leva”) à entrada dos restos da “Frigideira” em foto recolhida aqui.
publicado por João Tunes às 23:20
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1 comentário:
De odete pinto a 2 de Outubro de 2005 às 10:08
Obrigada por nos trazer este tema arrepiante.
E pensar que na antiga Sede da Pide, em Lisboa, vai surgir um condomínio de luxo.
Passei todos os dias, durante anos, pela "escola" da Pide em Sete Rios, sem saber o que aquilo era.
Hoje, está também destruída.

Como pode haver gente que não se indigne com o regime de suspeição - nunca se sabia se o "outro" com quem falávamos era um bufo que nos denunciaria, por nada, só para receber comissão.

Retive esta frase lapidar do texto, no Esplanar:

O Cândido acompanhou esta tragédia toda… No livro dele sobre o Tarrafal dedicou um capítulo à nossa fuga, mas como ele morreu antes do 25 de Abril, o sobrinho, que era do PCP, cortou esse capítulo…


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