Domingo, 17 de Julho de 2005

URBANO TAVARES RODRIGUES

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Tenho o mais profundo respeito pelo cidadão, escritor e professor Urbano Tavares Rodrigues. É um homem de grande talento literário, aberto ao mundo (embora possa pecar nas sínteses de circunstância), de uma imensa cultura e diversidade de gostos, sensibilidade, dignidade e generosidade. A sua sensibilidade de filigrana, sempre nas franjas do esteticismo, não beliscou a sua enorme coragem física (como deu provas, em 1969, quando enfrentou, até temerariamente – ou seja até o espancamento -, os pides no assalto à sede do MDP/CDE). Foi um homem de enquadramento partidário tardio, o que talvez explique a forma sofrida como ele gere e prolonga, até o absurdo da sua fidelidade generosa e típica da expiação de “culpas” dos que “demoraram” a “preencher a ficha de inscrição”, os laços entre as amarras ao obsoleto, o fascínio pela beleza e pelo novo e a independência de pensamento.

Conheci Urbano Tavares Rodrigues em apenas dois momentos e distantes, entre si, no tempo. No princípio dos anos sessenta, nas tertúlias que Mário Castrim animava para os jovens colaboradores do “Diário de Lisboa – Juvenil” e onde esses pós-adolescentes ainda de tinta fresca e iniciados nos amanhos da escrita dialogavam com figuras consagradas das letras, das artes e dos espectáculos. Desse encontro, ficou-me a recordação de um “rosto levantado” com olhos procurando a generosidade da beleza e uma marca de sensibilidade que me fez apetecer ser poeta e de que, felizmente, risquei projecto em tempo certo, ou seja, imediatamente que passada a paixão do fascínio. Voltei a encontrá-lo em lides sobre cinema um pouco antes do 25 de Abril. Para minha surpresa, Urbano era um conhecedor profundo de todo o cinema e exigente na procura estética, o que o tornava um admirador do cinema russo dissonante com o “jdanovismo”. Desse tempo, além do muito que com ele aprendi a olhar o cinema, ficou-me a recordação do seu rosto amargurado na luta contra uma terrível doença (que julgo já vencida) em que medonhas enxaquecas conflituavam com momentos de serenidade que ele aproveitava no máximo sabendo que a próxima crise vinha a caminho. Depois deste segundo encontro, nunca mais os meus caminhos se cruzaram com Urbano Tavares Rodrigues, excepto pela leitura dos seus livros.

Por todas estas razões, com marcas estéticas e emocionais, repito que tenho o maior respeito por Urbano Tavares Rodrigues. E, por isso mesmo, desconto-lhe o “pecado” da ingenuidade (um generoso alguma vez conseguirá deixar de ser ingénuo?) que ele exibiu na televisão e foi pretexto para este oportuníssimo e frontal post.
publicado por João Tunes às 16:18
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