Quinta-feira, 14 de Julho de 2005

NORMANNENSTRASSE (*) EXISTIU

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Cara Helena,

Você é mesmo uma mulher com sorte. Verdade que a merece pelos sentimentos que nos revela (uma humanidade cristã desinibida, de que tento partilhar a componente desinibida, respeitando o catolicismo crítico, esse não comungado, e aprendendo sempre consigo através da aferição com a sua visão diferente e tantas vezes simétrica da minha) . Além da sorte de viver na Alemanha, no mínimo por causa da cerveja e das salsichas (convém não arrefecer o espírito de generosidade nas ofertas), a Helena tem um agente de seguros (um "freier Makler") que, além de lhe zelar pelos seus interesses patrimoniais e pela cobertura dos seus riscos, é seu conselheiro político. O que é obra.

Vejam lá se não é um achado ter um agente de seguros que, em vez de desconversar sobre futebol ou sobre punks, se sai com esta: "Olhe, o partido comunista é como a Igreja. São sempre interessantes, e até enriquecedores. O problema é quando começam a impor os seus dogmas à sociedade."

Repouso um pouco dos posts e meto-me na leitura de momento:

“No total, a Stasi contava com 97.000 funcionários (para dezassete milhões de habitantes). Contava ainda com mais de 173.000 informadores entre a população. No Terceiro Reich de Hitler, estima-se que havia um agente da Gestapo por cada 2.000 cidadãos, na Rússia de Estaline havia um agente da KGB por cada 5.830 pessoas. Na RDA, havia um agente ou informador da Stasi por cada 63 pessoas. Se forem incluídos os informadores em tempo parcial, temos um informador por cada 6,5 cidadãos (**) (***)

Paro um momento para tentar pensar, recuperando deste choque em imaginar um estado policial desta dimensão, no porquê desta aberração e que heranças sobram destas cinzas de cidadania. E imaginar onde estão os do SED (”Sozialistische Einheitspartei Deutchlands”) e os que obedeciam às ordens de Erich Mielke. Desejando que poucos deles estejam a contaminar o PDS. E só posso também desejar à Helena que não duvide, por favor, sobretudo por si, que o seu agente de seguros e conselheiro político veio, por sorte sua e merecida, do lote dos cidadãos vigiados. A probabilidade a isso ajuda – é de 6,5 para 1. Ai, quantas vezes, a Santa Estatística nos traz a salvação do sossego.

Não pense sequer nisto, Helena. Goze bem, porque o merece, as suas desejadas férias. E, para preocupações, as suas inquilinas chegam-lhe e ainda sobram.

Abraço amigo.

(*) – Local onde se situava o Quartel General da Stasi (RDA).

(**) – Ou seja, de Hitler para Honecker, do nazismo para a fase amadurecida do marxismo-leninismo (o das realizações de 30 anos de RDA), os alemães de Leste passaram de um polícia político por duas mil pessoas para uma relação de um agente policial ou bufo para cada seis e meio camaradas. Assim, como se pode deixar de odiar muito mais Hitler que Estaline?

(***) Do livro “Stasiland”, Anna Funder, Civilização Editora.
publicado por João Tunes às 23:29
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2 comentários:
De Joo a 15 de Julho de 2005 às 00:27
Magude, suponho que te referes a Sérgio Vilarigues um velho dirigente do PCP. Se falamos da mesma pessoa, só a conheci de vista. Mas sei que ele conhece bem a RDA (foi durante muito tempo o responsável ao nível da Com Política das Relações Internacionais do PCP). Sempre foi um yes-man de Cunhal mas teve grandes méritos como clandestino - desde que voltou do Tarrafal nunca voltou a ser preso até ao 25 de Abril (julgo mesmo que tenha o record do tempo de clandestinidade sem ser preso, seguido da Cândida Ventura). Sobre o mesmo Vilarigues há tb uma história curiosa que li e contada pelo Edmundo Pedro - antes de ser "revolucionário profissional" ele era empregado num talho, mas como para a direcção do PCP se impunha a "regra de oiro" da "maioria operária", foi promovido, estatisticamente, a "operário salsicheiro" e assim ficou para o resto da sua actividade política. No imaginário do centralismo democrático, um talho pode bem ser pensado como uma fábrica e as salsichas frescas como irmãs na graça da classe operária. Abraço.


De magude a 14 de Julho de 2005 às 23:55
O meu mediador de seguros é mais pragmático, só quer mesmo saber de seguros e mais nada, e ainda bem para ele ou não era o meu agente de seguros, que para conselheiros políticos já me chega o meu barbeiro que apanhando-me de toalha enfiada e navalha ao pescoço não me deixa outra hipótese que não ouvi-lo-
Mas sabes João, para além do valor intrínseco do post ainda me deste tema para uma "discussão" com um velho conhecido meu, que deve também ser teu, o S. Vilarigues. Sempre quero ver como ele tem a dizer da frase lapidar do agente de seguros.
Um abraço,
José carlos.


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