Sábado, 1 de Outubro de 2005

LEMBRANDO TARRAFAL

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Aos poucos sobreviventes que ainda restam e foram prisioneiros do Campo de Concentração do Tarrafal (Chão Bom, Ilha de Santiago, Cabo Verde) todos os preitos de respeito que se lhes prestem só pecam por defeito. Li algures que o Dr. Jorge Sampaio vai-lhes prestar proximamente uma homenagem (aos sobreviventes e às memórias dos muitos que já não pertencem a este mundo). Em poucas outras situações, encarnará com o mesmo sentido a dignidade de ser Presidente desta República.

O Campo (o Nosso Campo, a medida salazarista de ter um sósia de Auschwitz ou Buchenwald) foi a maior vergonha da crueldade repressiva do católico-fascismo português. Para uma ideia aproximativa da génese e do cinismo nazistóide que enformou a obra, leiam-se estas palavras serenas de uma grande figura do nosso jornalismo (sobretudo no âmbito desportivo), antigo prisioneiro do Tarrafal, Cândido de Oliveira.

Mas, lembrando o Tarrafal, uma nota se impõe para dar a dimensão do espírito racista da ditadura. Criado em 1933 para presos políticos, considerados de “especial perigosidade”, tentando aniquilá-los física e psicologicamente e anulando a probabilidade de fuga, no final da II Guerra Mundial e pela similitude do Tarrafal com os “campos nazis”, o Campo foi encerrado e os seus presos ou foram libertados ou transferidos para Peniche. Mas nos anos sessenta, iniciadas as guerras coloniais, o Campo do Tarrafal foi não só reaberto como funcionou em ainda mais agrestes condições que as anteriores (agora os presos eram pretos, ou, pior, brancos que lutavam pelos pretos), enchendo-se de novo com prisioneiros vindos das colónias e suspeitos de apoiarem os movimentos de libertação (caboverdianos, guinéos, angolanos, moçambicanos, sãotomenses). E o Campo do Tarrafal só foi definitivamente encerrado depois de 25 de Abril de 1974.

Há cerca de quatro anos atrás, estando em Cabo Verde por actividade profissional, visitei as ruínas do Campo. E a sensação que tivera nos anos oitenta, quando entrei em Buchenwald, repetiu-se: ali estava um sinal indelével da selvajaria totalitária, essa expressão da vontade sem limites de destruir, triturando, homens discordantes.

Hoje, quando se fala do Tarrafal e vejo a lembrança e a homenagem circunscritas às dores e martírios dos prisioneiros “portugueses”, esquecendo-se a sua segunda e mais cruel utilização (integrada como peça da guerra colonial), não deixo de pensar que, por portas ínvias, algum antifascismo não consegue, também ele, ser imune ao eurocentrismo (digamos assim, para não ofender respeitáveis pessoas).
publicado por João Tunes às 18:29
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2 comentários:
De sa a 9 de Outubro de 2005 às 11:48
MEIA VERDADE. MEIA VERDADE. MEIA VERDADE. POR ISSO É QUE ESTA DEMOCRACIA ESTÁ DOENTE. PELOS SOPORÍFEROS DA MEIA VERDADE, É PRECISO CONHECER A HISTÓRIA, ESSA SERÁ A OUTRA MEIA VERDADE!


De C. Indico a 2 de Outubro de 2005 às 18:57
João:o ultimo parágrafo diz muita coisa que ainda tem de ser dita. Mas agora falo eu:é um belo carapuço para muita gente, deste e dos oytros lados.


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