Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

SEIS FUNERAIS E TRÊS LIVROS

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Isabel do Carmo (1) escreve hoje no Público um excelente artigo de opinião que vai em contra-corrente à tara fúnebre que marcou o calendário e o estilo das efemérides dos finados célebres em Junho e que se intitula "Os desaparecidos de Junho".

No fundo, o que esta hoje médica das nossas dietas recomendadas (e que, julgando pelas aparências, ela não seguirá como consumo próprio) e guerrilheira de outros tempos (a quem devemos a coragem quando soube combater o fascismo mas que era dispensável quando quis, no PREC, embalar para o "poder popular") faz é prestar a melhor homenagem possível aos mortos - tratá-los como se eles ainda estivessem vivos. Ou seja, continuar a prolongar as cumplicidades com os méritos na camaradagem da luta e não fazer tosse de missa perante os seus senãos nem, sobretudo, sacanices. E ai de nós se falamos a linguagem do culto da mentira conveniente para com os mortos, um dia fazemos-lhes companhia e eles vão-nos dar na cabeça.

Isabel do Carmo confronta-nos com este nosso atávico uso do filtro mediático perante a notoriedade e o reconhecimento - em Junho faleceram seis portugueses mui destacados e que estão na nossa história de sermos e continuarmos portugueses (parece que os deuses combinaram ceifa por atacado) mas, entre eles, só uma metade (Vasco Gonçalves, Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal) teve direito a celebração e referências de impacto. Outra metade passou, mais ou menos, entre as brumas do silêncio (Ludgero Pinto Basto, René Bartholo e Corino de Andrade). Vá-se lá saber porquê se tão bem conhecemos as razões.

Depois, Isabel do Carmo continua a sua batalha política (em divergência) contra Cunhal e o seu estalinismo persistente (normalmente adocicado à direita e à esquerda, como sendo portador da excelência da santa e heróica "coerência") com os seus contra-argumentos bem conhecidos (mas tantas vezes esquecidos). E essa insistência, repito, é a melhor forma, para os discordantes, de o homenagear. Eu que me incluo, com a humildade do sempre meu fraco papel, no lote dos que se opuseram a Cunhal quando ele era "vivo, poderoso e carismático", não posso deixar de aplaudir este continuar de combate político como uma forma bem superior de o respeitar versus os louvaminhas e seus pretensos herdeiros que querem embalsamar-lhe as cinzas e metê-las no Mausoléu dos Intocáveis, repetindo a receita que Estaline usou para com Lenine ao enfiá-lo em Mausoléu de culto para legitimação de uma falsa herança. Sobretudo porque Isabel do Carmo usa argumentos (discutíveis, como quaisquer outros) e evita a chicana.

Sobre os "esquecidos"- entre os falecidos de Junho -, Isabel do Carmo destaca Ludgero Pinto Basto (outro médico, outro resistente, por sinal). E aí ressoa, através das suas palavras, o drama da forma como se constrói o "esquecimento". Quanto ao miserável ostracismo mitigado que o PCP dispensou a um dos seus mais abenegados e destacados militantes (foi membro do Secretariado e não foi "folha seca" - morreu como membro do PCP) ele não surpreende na medida em que é medida da mediocridade construída dos (e para os) "herdeiros da fracção de Cunhal". Um homem de combate e luta, indómito na negação da iniquidade, Ludgero Pinto Basto, nunca rompendo com a sua matriz que o levou a virar-se contra o fascismo, é a imagem espantosa do homem e do militante que, não saindo do quadro da estrutura partidária estalinista, fez sua missão a negação e denúncia do estalinismo e dos seus crimes. Para quem sabe o mínimo sobre o PCP, o comportamento militante deste homem, capaz de gerir tamanha dicotomia, é coisa só possível numa personalidade homérica.

Ludgero Pinto Basto fez o seu ajuste de contas político-histórico pela forma indirecta da tradução de um livro que é um dos frescos mais reveladores e dilacerantes do drama dos comunistas vítimas de Estaline. Livro esse (2) que só viu a luz da edição após a sua morte e que é, acabou por o ser, a melhor celebração da sua mensagem de luta (a crença no ideal comunista sem a perversão estalinista). Sobre o livro de Anna Larina Bukharina e testemunho adoptado de Ludgero Pinto Basto, Isabel do Carmo lança este desafio: "Recomenda-se a leitura aos que ainda duvidam das purgas e da podridão do "sol na terra", mas também aos que continuam a acreditar e a lutar pela igualdade sem necessitar de religião." mas alerta: "Exige-se, no entanto, boa saúde mental para engolir este pedaço."

Concordo. E acrescento: para os que passarem nesta "licenciatura" de conseguirem ler "Bukharine, Minha Paixão", têm por aí, recentemente editados, dois livros para "mestrado" e "doutoramento" na comprensão do estalinismo (lusitanamente dito: da herança de Cunhal) - "Gulag - Uma história" (3) e "Stasiland - do outro lado do Muro de Berlim" (4).

(1) - Isabel do Carmo, nos meus tempos de juventude barreirense, foi minha heroína. Mais velha que eu, ela era um exemplo de combate para os que - como eu, puto barreirense por adopção -, na então vila vermelha sob ocupação militar, despontavam para as lides contra o fascismo. Encontrei-a depois em encontros e cisões do MDP/CDE em 1973 e ficámos, desde aí, sempre em campos opostos (hoje, apenas diferentes). Mantenho para com ela o respeito devido à mulher e cidadã livre, corajosa, interveniente e assumida.

(2) - "Bukharine, Minha Paixão", Anna Larina Bukharina, Edições Terramar - uma autobiografia da luta da mulher de Bhukarine, companheiro de Lenine e fuzilado por Estaline (um entre os outros).

(3) - "Gulag - Uma história" (Prémio Pulitzer 2004), Anne Applebaum, Civilização Editora - um trabalho de pesquisa histórica sobre a realidade do Gulag soviético, escontrando-se aqui, "quase tudo" o que não se sabia e não se queria saber.

(4) - "Stasiland - Do Outro Lado do Muro de Berlim" (Prémio Samuel Johnson 2004), Anna Funder, Civilização Editora - uma recriação testemunhada sobre o que foi o estado policial da RDA (melhor dito: "Stasiland"), ou seja, a parte do "socialismo real" onde a penetração e o controlo policial em todas as vidas foi levado ao máximo expoente paranóico e que, hoje, como herança, continua a ser uma das marcas traumáticas do (mal) estar alemão e da (bi)nação alemã.
publicado por João Tunes às 16:55
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