Domingo, 10 de Julho de 2005

HONRA A BLAIR

r835891488[1].jpg

Um mérito não menor que competem a Blair, à comunicação social inglesa, às diversas autoridades britânicas, à fleuma dos londrinos e (até!) ao comportamento de Isabel II, é a resposta cultural que deram aos nefandos crimes de 7 de Julho em Londres. Deixando claro que a lide das democracias com o terrorismo não é, porque nunca foi,uma luta "entre civilizações" mas, apenas, o preço de se suportar e enfrentar gente que recusa a vida das pessoas comuns ligadas em sociedade em nome da recusa de "civilização", qualquer civilização. Devemos-lhe isso (também isso). Ou seja, a contenção da histeria e da irresponsabilidade.

A cobardia dos assassinatos de cidadãos comuns pretende, acima de tudo (ou só), colocar-nos na situação de nos sentirmos todos alvos indefesos (obrigando-nos a tomar partido, que mais não seja através da interiorização e da partilha do medo, dizendo-nos: a esta guerra você não escapa, eu posso matá-lo) e a gerirmos os medos da maior fragilidade que é a vida, procurando razões no irracional e, em auto-punição, procurarmos "bodes expiatórios" entre nós - os da civilização.

O fim da guerra fria e o definhamento do poder temporal do leninismo (a sua morte não passa de anunciada, muito menos na sua parte espiritual) e que rompeu o equilíbrio no conflito da bipolaridade política e ideológica, remeteu as democracias para a procura exacerbada e expositiva das suas fracturas e debilidades internas. Tanto mais porque não existem democracias perfeitas nem acabadas (nem existirão, porque são sistemas abertos) e o suporte sobrevivente da democracia assenta no capitalismo e este na desigualdade e na concorrência entre desiguais. Assim, a vitória das democracias face ao leninismo, na míngua de contraponto, expôs o sistema capitalista democrático à evidência das suas fragilidades, insuficiências, perversões, abusos e iniquidades. Acabando-se as desculpas dicotómicas, sobraram as solidões expostas das forças e das fraquezas. E a posição de qualquer cidadão perante a democracia é sempre de que o que nela é bom está adquirido, o importante, a notícia, o impacto motivador, é sempre o que está mal ou é inaceitável. A democracia torna a virtude banal e o pecado como um motivo para uma manif.

O terrorismo islâmico entendeu este novo quadro com uma inteligência superior. Melhor que tudo e todos, porque não tem peias com escrúpulos nem perde tempo com a escolha das vítimas - elas serão as mais indefesas, as que espalharem mais medo e tornarem o terror mais espectacular. O resto, o mais importante para ele (terrorismo), é obra dos que escapam como vítimas - incapazes de nos deterem, voltar-se-ão contra si próprios, procurando os culpados entre elas (as democracias). Mais cedo que tarde, serão eles (os sobreviventes das democracias), não nós (os terroristas), provocados por nós (os terroristas), que darão as bofetadas em Bush, em Blair, em todos os que governam através do meio ímpio do voto, o grande vício democrático.

O ressentimento perante as iniquidades da democracia capitalista foi, durante décadas, o alimento do leninismo. Sabe-se como esse resentimento, tornado poder, desembocou em iniquidades mais monstruosas (perdida a liberdade,não sobrou igualdade, depois ficaram os excrementos de Estados policiais). Mas a evidência da insuportabilidade das monstruosidades leninistas não resolveram as iniquidades das democracias e, logo, também não os ressentimentos perante elas. Sobrou, assim, matéria-prima disponível. Bin Laden percebeu-o bem e viu chegada a hora de uma nova cruzada redentora sob a forma de apocalipse. Que bem ele percebeu esse manancial disponibilizado em herança pelo leninismo exangue dos disponíveis para, entre dois choros rápidos pelas vítimas dos atentados, levantarem logo a mão contra Bush e Blair! Por cada vítima, aparecem milhares de voluntários a espetarem o dedo contra os erros democraticos. E, para mais, como esses dedos são levantados no interior de regimes democráticos ciosos das suas regras, eles têm a força da liberdade democraticamente expressa e, assim, são imperturbavelmente mortíferos.

Na hora do crime lhes bater à porta, Blair e os ingleses fizeram o que exigia mais talento - fleumaticamente continuam ingleses e democráticos, enquanto reduziram ao mínimo os pretextos para os artistas de circo se exibirem. Isto e melhor polícia (no ataque aos terroristas e na sua prevenção) são as esperanças contra Bin Laden. E as da civilização contra o buraco negro dos fanáticos das bombas.
publicado por João Tunes às 17:04
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. NO RIO DA TOLERÂNCIA

. LEMBRANDO MARIA LAMAS, MA...

. SOLDADO FUI, OFICIAL TAMB...

. UMA VELHA PAIXÃO PELO “DL...

. LIBERDADE PARA FERRER GAR...

. VIVA A REPÚBLICA !

. FINALMENTE, A HOMENAGEM (...

. COM OS PALANCAS NEGRAS

. POR CESÁRIO VERDE
(esq...

.arquivos

. Setembro 2007

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds