Terça-feira, 5 de Julho de 2005

O PAÑUELO

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Tem que se usar o pañuelo (*). Sem um pañuelo, uma pessoa, qualquer pessoa, nos dias que aí vêm, faz figura de parvo em Pamplona. É o símbolo da adesão, da vontade e da sinceridade de ali estar. Uma espécie de senha para entrar na tribo pagã da religião da loucura de San Fermín.

Nos tempos de calma, de respeito ou de quebra de força, usa-se o pañuelo ao pescoço. Fora isso, o pañuelo serve para tudo, fazendo as vezes de amuleto e de meio de comunicação – para acenar na exaltação, para tentar uma namorada apetecida, para oferecer aos deuses, para mostrar a cor da bebida que apetece, como troféu e como recordação para o melhor amigo. Porque, sem o pañuelo, uma parte da alma esgota-se da alegria de viver e da a cruzar com o desafio de vencer o medo de morrer. Ou seja, sem o pañuelo não se é quase nada, é-se muito pouco, vá lá conceda-se que se é um nico mais que um vegetativo.

(*) – Pañuelo – pequeno lenço vermelho que faz parte do traje navarro e que é usado emblematicamente pelos participantes nas Festas de San Fermín em Pamplona e que se realiza todos os anos por esta altura.

[Sem nunca ter estado na “Ferminada”, tenho uma estória sentida à volta do pañuelo. Um meu amigo a quem muito quero (lá está ele já a esta hora em Pamplona, como é sua praxe todos os anos desde há muitos anos), recém-chegado de San Fermín, ofereceu-me um pañuelo que guardei no meu local de trabalho. Passados dias, de chofre, ao fim de uma tarde, deram-me uma hora para abandonar a empresa e com nota de que lá não podia voltar até se cumprir a formalidade do despedimento. Pretendia o tiranete, com uma só estocada, o meu afastamento vitalício. Essa hora dada, como última hora de um condenado, era para, sob vigilância e sem autorização para mexer no computador excepto desligá-lo, retirar as minhas coisas pessoais antes de zarpar como escorraçado daquela empresa a que me ligavam trinta anos de trabalho (e de lutas e sonhos, sim). Pouco mais trouxe que o pañuelo que era oferta fresca e estimada. De pañuelo na mão, senti-me mais digno na hora do pontapé no cú. Devo isso, tanto, ao pañuelo e ao meu amigo e amigo de San Fermín.]
publicado por João Tunes às 16:10
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2 comentários:
De Joo a 5 de Julho de 2005 às 23:41
Corrijo: Don Jorge! E depois da correcção, um grande abraço.


De Joo Carvalho Fernandes a 5 de Julho de 2005 às 22:44
E viva D. Jorge!

Abraço


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