Segunda-feira, 4 de Julho de 2005

FALANDO SOBRE “PRETOS”

zubeida[1].jpg

Acutilante e sentido este texto do Carlos Gil. Certeiro também. Mas, contra o beco-sem-saída em que pode redundar o desabafo, gostaria de levantar três pontos para reflexão. E se o racismo não tem desculpa, os meus pontos de alinhavo nunca poderiam pretendê-la. Mas talvez uma visão digamos mais “histórica” e “abrangente” possa fazer acreditar em alguma medida de relativização que torne a denúncia feita (justíssima!) mais digerível através do seu entendimento (nunca aprovação).

Primeiro: O racismo foi, porque tinha que ser, uma inevitabilidade na presença portuguesa em África (e na presença de qualquer outra potência colonial em qualquer lugar do mundo). É insustentável, até do ponto de vista psicológico, a ocupação de território, de riquezas e de pessoas, se não se considerar a posse pela força como legítima e os seus detentores originais como inferiores ou sub-humanos que não merecem o que têm (o espaço, as terras, as riquezas). Isso é muito nítido e paradigmático no fruir da paisagem – são os ocupantes e os seus descendentes mais os viajantes (os vindos) os mais fascinados pelas belezas naturais e pelo seu exotismo de diferença (os animais, as praias, as árvores, o por-do-sol, o espaço, etc) e isso porque funcionam como contraponto à paisagem europeia. Do ponto de vista do colono, não há escolha entre racismo e não racismo. Só pela abstracção idealizada se poderá falar na hipótese de domínio dos outros sem inferiorização dos outros. [E as excepções (os que viveram a realidade colonial sem se deixarem imbuir do racismo) faziam parte da contra-cultura colonial. E, como qualquer contra-cultura, ela só o foi quando e porque foi minoritária e irrelevante perante a força da ideologia dominante.] A cultura de racismo de ocupação perdura para além do fim do próprio colonialismo, mantendo-se como relação de predomínio económico e como mecanismo de defesa do perigo de perda de privilégios (vi racismo muito mais boçal e brutal naqueles que “ficaram” ou “foram depois para” Moçambique independente relativamente aos que vieram para Portugal nas sequelas da descolonização). O que julgo demonstrar que o fenómeno do racismo é, acima de tudo, um mecanismo de ocupação (podendo perdurar pelo domínio económico mesmo despojado do domínio político e administrativo) e de defesa perante a diferença. Quem domina outros, independentemente da natureza do domínio, só pode aceitar-se como factor de supremacia se apoucar esses outros. No fundo, é mais, ou muito mais, que um problema de auto-estima?

Segundo: O inverso também me parece verdadeiro. O racismo funciona igualmente como defesa de espaço perante a ameaça de estranhos que nos invadem, coabitando e concorrendo connosco (pelo menos, ao nível cultural). Exemplos disso serão quer o racismo negro praticado na fase de descolonização e de afirmação de independências (e que, aqui e ali, vai permanecendo) como o racismo de muitos europeus que nunca estiveram em África e perante os fortes fenómenos migratórios das últimas décadas e que mesclam a vivência europeia (e o mercado de trabalho).

Terceiro: Quantas vezes o ”anti-racismo” não passa de um racismo de mel? E que se exprime num o que é preto, ou africano, é bom. Num processo histórico-cultural-ideológico de expiação de culpas coloniais, uma certa esquerda (que, hoje, muito recheia as hostes bloquistas) tenta aplicar um código de isenção, absolvição e condescendência para com atitudes tomadas por indivíduos ou grupos de origem africana, condenáveis e inaceitáveis nos nossos padrões cívicos, mas que neles se quer isentar, via “descriminação positiva”, numa atitude que só pode ser entendida se lhes atribuirmos um estatuto de menoridade irresponsável. Ou seja, ainda, uma medida de relação entre “superiores” e “inferiores” (“nós” e os “outros” – que uns odeiam e outros desculpam).

Adenda: Não podia deixar de trazer para aqui - o largo da minha igreja privativa - a réplica estimulante do Carlos Gil ao meu post de acicate ao seu desabafo sentido sobre essas pestes do racismo e da xenofobia que, por aí e aqui, não param de crescer:

Embora tenha lido o teu post à tarde só agora me foi possível 'cá vir'. Vou tentar resumir a minha ideia sobre 'racismo'. Ele existe sempre que cada Homem passa a ser julgado, 'pesado' nas suas relações, para além do ser individual que é, seus actos, sua postura social. O englobamento do indíviduo em grupos étnicos - por si promovido ou por outros a tal condicionado, é o gérmen do racismo, o gueto onde cabem depois todos os fantasmas propagandeados ab nauseum por sociedades sequiosas de 'inimigos' que as desculpabilizem em erros próprios. Já o li mais de uma vez e cada vez mais concordo: somos todos mestiços. E é a consciência íntima de que tal é verdade que leva muitos a apontarem dedos ao pigmento que encontrarem mais oposto ao seu, para exorcizarem essa verdade que os incomoda, vá-se lá saber porquê. Cada H é um caso isolado, e é assim que cada um deve ser considerado. Sobre os gangs afro-lusos cá da terrinha: é o típico caso do basófia de bairro extrapolado para grupos. Vive e alimenta-se da sua fama e do medo de que tem necessidade de impor. Como gang, esse medo de terceiros é a sua sobrevivência, tal como o 'mau' do bairro, da escola, etc, etc. E a imprensa tem feito o seu fogo, incessantemente, vergonhosamente. Como não somos miúdos para andar à trolha, pois estas coisas com adultos são mais complicadas, a missão de enfrentar o 'durão/gang' pertence a quem a isso foi habilitado, polícia. Não tenho a menor dúvida que a arma principal dos gangs é o racismo que exibem, pois é a sua arma principal para gerar o medo nos restantes habitantes do 'bairro'. Mas pergunto - e não é nenhuma pergunta de 'um milhão de dólares': vindos de guetos e existindo, como existe!, um racismo e um xenofobismo acentuado na sociedade (principalmente na urbana, ouso acrescentar), não é essa a arma óbvia, quase inevitável, que (se lhe coloca) têm à mão? e que usam como proto-delinquentes que são, quando não mesmo já 'licenciados'? Nada sei por conhecimento próprio da realidade de que agora vou falar, para além do algo que vou lendo, relatos de episódios aqui e ali: o racismo nas antigas colónias. A impressão que tenho é que ele, na vertente 'negro-branco', é muito mais soft que cá em Pt. Que é fortemente censurado quando se manifesta. E até ouso pensar que é em muito gerado pelo seu inverso, o 'branco-negro', que lá está associado em norma a desníveis sociais, a situações de privilégio (é triste e quase irreal atento o processo histórico, mas leio acerca de casos concretos, e constantemente). João, escrevi à vela larga, sabemos que é tema que carece e merece mais e melhor. Foi o que me veio à cabeça no momento, provavelmente até fugi à balizagem no tema conforme proposto (ao escrever-se aqui, deixa-se de ver o post principal). Pode ser que haja tempo e cabeça para, em breve, tentar alinhar umas ideias sobre o tema, actual pelas piores razões - não fosse o racismo a mais negra expressão de desumanidade que conheço, até ouso acrescentar...

Fica a vénia de agradecimento ao meu querido amigo que desde Almeirim me deu troco. Não rebato nem acrescento. Por agora, fico só a pensar. Quem quiser que se chegue.
publicado por João Tunes às 13:42
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2 comentários:
De Carlos a 4 de Julho de 2005 às 22:39
Embora tenha lido o teu post à tarde só agora me foi possível 'cá vir'.
Vou tentar resumir a minha ideia sobre 'racismo'. Ele existe sempre que cada Homem passa a ser julgado, 'pesado' nas suas realções, para além do ser individual que é, seus actos, sua postura social. O englobamento do indíviduo em grupos étnicos - por si promovido ou por outros a tal condicionado, é o gérmen do racismo, o gueto onde cabem depois todos os fantasmas propagandeados ab nauseum por sociedades sequiosas de 'inimigos' que as desculpabilizem em erros próprios.
Já o li mais de uma vez e cada vez mais concordo: somos todos mestiços. E é a consciência íntima de que tal é verdade que leva muitos a apontarem dedos ao pigmento que encontrarem mais oposto ao seu, para exorcizarem essa verdade que os incomoda, vá-se lá saber porquê. Cada H é um caso isolado, e é assim que cada um deve ser considerado.
Sobre os gangs afro-lusos cá da terrinha: é o típico caso do basófia de bairro extrapolado para grupos. Vive e alimenta-se da sua fama e do medo de que tem necessidade de impor. Como gang, esse medo de terceiros é a sua sobrevivência, tal como o 'mau' do bairro, da escola, etc, etc. E a imprensa tem feito o seu fogo, incessantemente, vergonhosamente. Como não somos miúdos para andar à trolha, pois estas coisas com adultos são mais complicadas, a missão de enfrentar o 'durão/gang' pertence a quem a isso foi habilitado, polícia. Não tenho a menor dúvida que a arma principal dos gangs é o racismo que exibem, pois é a sua arma principal para gerar o medo nos restantes habitantes do 'bairro'. Mas pergunto - e não é nenhuma pergunta de 'um milhão de dólares': vindos de guetos e existindo, como existe!, um racismo e um xenofobismo acentuado na sociedade (principalmente na urbana, ouso acrescentar), não é essa a arma óbvia, quase inevitável, que (se lhe coloca) têm à mão? e que usam como proto-delinquentes que são, quando não mesmo já 'licenciados'?
Nada sei por conhecimento próprio da realidade de que agora vou falar, para além do algo que vou lendo, relatos de episódios aqui e ali: o racismo nas antigas colónias. A impressão que tenho é que ele, na vertente 'negro-branco', é muito mais soft que cá em Pt. Que é fortemente censurado quando se manifesta. E até ouso pensar que é em muito gerado pelo seu inverso, o 'branco-negro', que lá está associado em norma a desníveis sociais, a situações de privilégio (é triste e quase irreal atento o processo histórico, mas leio acerca de casos concretos, e constantemente).
João, escrevi à vela larga, sabemos que é tema que carece e merece mais e melhor. Foi o que me veio à cabeça no momento, provavelmente até fugi à balizagem no tema conforme proposto (ao escrever-se aqui, deixa-se de ver o post principal). Pode ser que haja tempo e cabeça para, em breve, tentar alinhar umas ideias sobre o tema, actual pelas piores razões - não fosse o racismo a mais negra expressão de desumanidade que conheço, até ouso acrescentar...
Forte abraço, companheiro.


De IO a 4 de Julho de 2005 às 14:55
Excelente discussão do 'post' do Gil, obrigada! - IO.


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