Segunda-feira, 27 de Junho de 2005

A MEMÓRIA COMO ESTORVO AO PROGRESSO?

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”O CAMPO – seja de trabalho, de concentração ou de extermínio – converteu-se num ponto obrigatório da reflexão política. Claro que é um lugar extremo e excepcional mas é precisamente essa excepcionalidade que lhe dá actualidade. O CAMPO é um lugar de estado de excepção, quer dizer, o lugar em que se suspende o Direito e onde o homem é considerado como puro corpo e não como sujeito com direitos.”

(…)

”O CAMPO vem de longe. Foi a única resposta política que os Estados europeus de entreguerras encontraram para resolver os problemas das minorias étnicas, como disse Hanna Arendt. Foi também a solução burocrática que os nazis conceberam para “resolver” a questão judaica. O que se esquece, entretanto, é que os CAMPOS preencheram parte importante da paisagem da Espanha franquista. Os fiéis da República, uma vez derrotados, passaram a ser inimigos do regime e os CAMPOS foram o lugar de castigo daqueles que escaparam aos fuzilamentos. Estes CAMPOS cumpriram a dupla função de prisão e de trabalho forçado para a realização de obras caras, perigosas ou simbólicas como, por exemplo, o Valle de los Caídos e o Canal (dos Presos) do Baixo Guadalquivir.”

”O CAMPO foi objecto de um silêncio nada espontâneo. Para avaliar a gravidade desse esquecimento não só há que ter em conta aquilo que a desvalorização do sofrimento e da injustiça arrastam consigo, mas também o perigo que todos corremos já que o esquecimento é resultado de uma estratégia que o permitiu, e o silêncio actual é a melhor prova de que o velho inimigo continua à solta. Daí a importância da memória: não só para que a história não se repita; não só para fazer justiça de algum modo ao passado recordado, mas também para nos armarmos moral e politicamente contra essa barbárie que não parou e continua a ganhar batalhas."

"O filósofo judeu alemão Theodor Adorno dizia que a barbárie da segunda guerra mundial impunha à humanidade uma nova forma de pensar e de viver, um novo conceito de verdade e de moralidade. E exprimiu-se assim: “Hitler impôs aos homens um novo imperativo categórico para o seu actual estado de escravidão: o de orientar o seu pensamento e a sua acção de modo a que Auschwitz não se repita, que não volte a acontecer algo de semelhante.” Deduzindo o que ele diz, a sua mensagem é que há recordar Auschwitz para que não se repita, isto é, há que reorientar o pensamento e a acção de modo a que esse passado não tenha repetição. E, diga-se de passagem, que quando se fala de “Auschwitz” falamos de toda a barbárie política do Século XX, barbárie essa que alcançou um nível de horror inimaginável nos CAMPOS de extermínio nazis mas que esteve igualmente presente nos CAMPOS de concentração do fascismo europeu e do estalinismo soviético. Em Espanha, antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial.”

(…)

”O deportado (no CAMPO de concentração) é despojado de toda a humanidade para ser reduzido a puro corpo, sendo o corpo do deportado o objectivo político da organização do CAMPO. Toda a vida do CAMPO está pensada em torno do corpo. Para os carcereiros, o sentido do CAMPO é reduzir a existência do prisioneiro às funções biológicas do corpo – comer, defecar, matar e fazer desaparecer o corpo. E se, assim, o privado é público, a luta do prisioneiro consiste em tentar, inutilmente, que o público se torne privado.”

(…)

”O problema da memória é a sua fragilidade extrema. (…) O que tivemos de esperar até hoje para podermos falar nos CAMPOS de concentração da Espanha franquista, das valas comuns e dos “desaparecidos”, do Canal dos Presos do Baixo Gaudalquivir, dá-nos a ideia da fragilidade da memória. Como foi possível? Porque se esqueceu? As razões são várias. Há, em primeiro lugar, uma razão psicológica que aconselha aqueles que viveram uma experiência traumática a esquecerem para continuarem a viver; há também razões políticas – que, conscientes do poder subversivo da memória, a administram em função dos interesses políticos do momento. Essas políticas da memória não teriam alcançado o seu objectivo se não se tivessem apoiado numa estrutura amnésica que enforma a lógica moderna, o nosso modo de conhecer, e o conceito que temos sobre a verdade. As políticas da memória têm sucesso porque a memória é irrelevante ou perigosa para o conhecimento e a verdade. Para o progresso, o grande mito do nosso tempo, a memória é um estorvo.”

Tradução de excertos de “Por una cultura de la memoria”, Reyes Mate (do Instituto de Filosofia – CSIC), texto integrado em “El Canal de los Presos (1940-1962)”, obra colectiva, Ed. Crítica (Espanha)

[Na imagem, estou eu, no centro figurativo, de visita à memória no "Vale dos Caídos" e apanhado pela objectiva da minha rainha consorte (= com sorte). Olhando, para entender, à minha esquerda, um grupo de jovens espanhóis a prepararem-se para uma pose histórica no local de culto do nacional-catolicismo espanhol construído pelo trabalho forçado dos vencidos de uma guerra em que a Igreja Católica apoiou o fascismo e, hoje, o continua a celebrar através de missas de reverência a Franco e aos falangistas. Tendo, à minha direita, outro grupo onde se fala português e que descansa após o momento alto da excursão paroquiana organizada pelo cura de uma aldeia portuguesa, com certeza, do nosso interior lusitano.]
publicado por João Tunes às 19:36
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