Quinta-feira, 23 de Junho de 2005

UMA HOMENAGEM OPORTUNA

vascocarvalho.jpg

Esta.

Já este post estava no “ar” quando li um artigo de Ana Margarida de Carvalho na revista Visão (não acessível na versão on-line), intitulado “O homem sem sombra” e dedicado a Vasco de Carvalho. Nele, cita-se o próprio que, a propósito da homenagem que lhe vai ser prestada no próximo Sábado, diz esta frase que me calou fundo: “É uma homenagem imerecida. Nunca fui ninguém de valor.” E fiquei a pensar nela, sobretudo no valor que na nossa sociedade (e perante nós próprios) se dá a ter-se, ou não, valor.

Não conheço pessoalmente Vasco de Carvalho e fiquei a saber que também não o vou conhecer no próximo Sábado. Não por causa da pouca conta em que ele tem o seu valor mas, simplesmente, porque presença numa cerimónia pública é pedido demasiado para quem tem 96 anos de idade e está doente. Mas conheço parte da sua história e do que ela significa e procurarei saber mais ouvindo os testemunhos e resultados de investigação histórica por parte dos oradores convidados para a sessão na Biblioteca Museu República e Resistência. Ou seja, sei o suficiente para marcar presença aproveitando para mais tentar entender sobre uma das páginas mais negras da resistência ao fascismo em Portugal.

Falei de página negra a propósito de como uma fracção do PCP (militantes saídos do Tarrafal mais outros do “interior”), nos anos 40-41 e sob o pretexto de uma necessária “reorganização”, se apropriaram da direcção partidária e escorraçaram o Secretariado em exercício (em que Vasco de Carvalho, era o Secretário-Geral interino na falta de Bento Gonçalves). Tratou-se de uma luta interna que se entende naquele quadro especialíssimo de combate à ditadura e, provavelmente, sem a “reorganização” levada a cabo (sobretudo pela adopção de regras de defesa da organização e dos seus militantes), a PIDE teria conseguido a aniquilação irreversível do PCP ou a sua redução a um grupúsculo de fraca implantação (e, por arrastamento, ao esfrangalhamento da resistência ao fascismo). Para mais, sem aquela “reorganização”, mais as purgas que se seguiram, Cunhal não teria sido o celebrado Cunhal e, assim, o PCP ou não tinha sobrevivido ou seria uma organização diferente, supondo-se que menor. Portanto, e nestes aspectos, a “reorganização” de 40-41 deve ser levada à conta de uma “página vermelha” na história do PCP e do combate ao fascismo. Então porque pinto também de negro aquela mesma e rubra página? Pela tragédia imensa dos métodos utilizados para afastar os “rivais” dirigidos por Vasco de Carvalho. Em que a miséria do sofrimento da calúnia e do ostracismo foi o preço pago pelos derrotados na luta pela direcção.

Imagine-se o que pode representar, dos pontos de vista humano e político, militantes honrados e devotados, como mais tarde se provou e se admitiu (“de passagem”), na mais dura clandestinidade, inteiramente dedicados aos seus ideais e ao combate ao fascismo, passarem a ser acossados e denunciados como “traidores”, “provocadores” e “informadores da polícia” (em que está para contar, sem rodeios, como e porque é que Manuel Domingues foi assassinado a tiro). Depois, pelo menos no caso de Vasco de Carvalho, presos pela PIDE (para quem eram comunistas) enquanto segundo a “verdade do PCP” eram agentes da mesma polícia. Assim, em termos históricos, a "reorganização” (além dos efeitos de maior eficácia da luta clandestina) teve um alto preço em tragédias humanas de homens injusta e vilmente estigmatizados. Aqui, em pleno salazarismo e com a guerra a queimar a Europa, imitou-se o pior (num mimetismo pró-soviético que nunca mais abandonou o PCP formatado por Cunhal) que Estaline tinha feito e fazia na URSS (tudo o que Estaline fazia eram façanhas geniais, os crimes também). E continuou-se por esse atalho da “prática revolucionária” e que assumiu foros de canibalismo político – Fogaça que liderou (através do célebre e miserável panfleto de calúnias embrulhado no conto “O Menino da Mata e o seu Cão Piloto”) a “caça aos bufos e provocadores” (uma versão rasca e demente de “caça às bruxas”) acabaria por se ver afastado da liderança e do PCP para que Cunhal emergisse como líder único e eterno (como acabou por acontecer) também se usando contra ele um pretexto de miserável invocação (ser homossexual).

A homenagem do próximo Sábado a Vasco de Carvalho é justa e merecida. Ele tem mais que valor para ser alvo dela. Para que seja uma “compensação da memória” a um velho de vida vivida na luta e sob a lama da calúnia e para que a história, a história da luta do PCP e da luta contra o fascismo, não se encolha perante os candidatos à preservação do silêncio. Para que se saiba e se não esqueça, pelo menos, que lutar contra o fascismo em Portugal, sendo-se comunista, representou dois riscos paralelos - o da vida perante a PIDE e o da honra perante o estalinismo do PCP.
publicado por João Tunes às 00:38
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