Quarta-feira, 22 de Junho de 2005

O HORROR E O RISO

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” Poder-se-á dizer que, até hoje, ainda não foi criada a estrutura social, cultural e política que permitirá o conhecimento do Gulag.
Tomei consciência deste problema pela primeira vez há alguns anos quando atravessei a Ponte Carlos, uma grande atracção turística naquela que era então a Praga recém-democratizada. Havia vendedores de tudo ao longo da ponte e a cada passo alguém vendia precisamente aquilo que se espera encontrar à venda nesse cenário perfeito de bilhete postal. Pinturas de lindas ruelas estavam em exposição, juntamente com jóias de ocasião e porta-chaves de “Praga”. Entre o bricabraque, podia-se comprar toda a parafernália militar soviética: barretes, insígnias, fivelas de cintos e pequenos emblemas de lapela, as imagens de lata de Lenine e Brejnev que as crianças das escolas sovièticas um dia prenderam aos seus uniformes.
A visão abalou-me pela sua singularidade. A maioria das pessoas que compravam a parafernália soviética era americana ou da Europa Ocidental. Qualquer delas ficaria doente só de pensar em usar uma suástica ao peito. Nenhuma recusava, no entanto, usar uma foice e martelo numa t-shirt ou num boné. Era uma observação sem importância, mas, por vezes, é precisamente nos pormenores que um comportamento cultural é melhor observado. A lição não podia ser mais clara: enquanto o símbolo de um assassínio em massa nos enche de horror, o símbolo de outro assassínio em massa faz-nos rir.
Se existe uma falta de sentimentos acerca do estalinismo entre os turistas de Praga, ela é parcialmente explicada pela escassez de imagens na cultura popular ocidental. A Guerra Fria produziu James Bond e filmes de espionagem e caricaturas de russos como os que apareceram nos filmes do Rambo, mas nada tão ambicioso como “A Lista de Schindler” ou “A Escolha de Sofia”.
Steven Spieldberg, provavelmente o mais bem sucedido realizador de Hollywood (goste-se ou não) escolheu fazer filmes sobre campos de concentração japoneses (“O Império do Sol”) e sobre campos de concentração nazis, mas não sobre campos de concentração estalinistas. Estes não conseguiram cativar da mesma maneira a imaginação de Hollywood.”

In Anne Applebaum, “Gulag – uma história”, Civilização Editora
publicado por João Tunes às 13:18
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2 comentários:
De Joo a 23 de Junho de 2005 às 16:02
Bem aparecido, caro Magude. Abraço.


De magude a 22 de Junho de 2005 às 22:27
Um dedo bem no meio da ferida João. Realmente é algo que eu também nunca entendi. Ou melhor, se calhar até entendo, mas não aceito. Enquanto que em relação ao nazismo temos decénios de informação, em relação ao estalinismo e quejandos, por esta ou aquela razão isso nunca aconteceu e a propaganda soviética, enquanto funcionou, funcionou bem. E se até Álvaro Cunhal deconhecia os Gulag e era tu cá tu lá com o Politburo, quem sou eu para realmente saber o que se passou por lá?
Um abraço,
José Carlos.


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