Terça-feira, 21 de Junho de 2005

NA DESCIDA AOS GUETOS

r1420670367[1].jpg

A propósito de um meu post anterior, o Miguel Silva desafia:

”Como é que se devem (re)definir as políticas de realojamento, para aproveitar o que existe de bom e erradicar o que está mal, sabendo que elas estão a resultar, tal como são postas actualmente em prática, em guetos sociais tão propícios à marginalidade como os bairros de onde se tiram as pessoas? Como é que se devem (re)definir as políticas de realojamento, para aproveitar o que existe de bom e erradicar o que está mal, sabendo que elas estão a resultar, tal como são postas actualmente em prática, em guetos sociais tão propícios à marginalidade como os bairros de onde se tiram as pessoas?”

A pergunta exige talento ciclópico que, para mais com a canícula aí espalhada, está muito acima do meu talento de perspicácia. Podia dizer “não sei, nem tenho de saber, porque sou cidadão sem diploma em teorias e práticas de reinserção social” e assim lhe dava a Taça que, se calhar, era feita do deixar tudo na mesma até aos efeitos do próximo “arrastão” ou da próxima manif neo-nazi e da competente contra-manif dos anti-racistas, ficando-me pelo contra uns e contra outros, talvez contra todos. Mas não é o caso e dou-lhe mais uns trocos:

1) Haverão boas e más práticas de reinserção social de populações situadas em bairros problemáticos. Melhorem-se as melhores, aprenda-se com as más para não as repetir. Como deve ser bom uso político para com qualquer problema social. É que, fora da revolução, não há soluções radicais de redenção. E aí ainda não chegámos. Ou já? Então avance-se no processo de procura por tentativas.

2) As dificuldades nas boas práticas na reinserção social não podem bloquear o afrontamento aos problemas de criminalidade organizada e suportada, pelo menos em santuário de logística, de recrutamento e de paióis, em bunkers onde o Crime está em superioridade relativamente à Lei, ou seja, exógena à Autoridade do Estado e ao seu dever de combater o crime.

3) A configuração dos “bairros do crime”, na sua própria dinâmica da geometria de disposição e na irradiação de habitáculos e de alteração dos meios de circulação, tende, com o tempo, a adaptar-se a uma boa circulação e sobrevivência dos delinquentes (chamemos-lhe, por eufemismo, “NT”) e a estruturar um obstáculo de defesa contra a incursão das forças do “IN” (polícia, no caso). Nestes casos, quando a Autoridade se pretende exercer, das duas uma: ou se consegue intervir com adaptações urbanísticas violentas (como só pode ser a destruição do que seja obstáculo à circulação rápida da polícia) ou, pura e simplesmente, se segrega para locais habitáveis a população que co-habita com o crime e, também pura e simplesmente, se destrói o “quartel das NT”. Eu defendi uma das duas opções mas admito que outra, mais talentosa, valha mais em cima da mesa.

4) A reinserção social e habitacional de populações vivendo com o crime ou quem ele co-habitando tem problemas sociológicos delicados a resolver. Pois tem. Sobretudo, porque além do crime e da logística que acabam por entranhar a cultura desses meios (ai, a dinâmica dos critérios do “bem” e do “mal”…), o conceito de “nós” e dos “outros” adapta-se àquela vivência. Surgem, então, os conceitos do “bom malandro” que, a qualquer momento, pode evoluir para o do “bom delinquente” e nada, quando do exercício da autoridade, é pior que a “bófia”. Não tenho dúvidas que na “cova da moura” e noutros bairros parecidos (ou piores) haja boas e honestíssimas pessoas. Mas tenho-as todas de que, culturalmente pelo menos, um qualquer polícia de giro não seja olhado com mais aversão que o pior dos “bons malandros” seus vizinhos. É o sentido gregário a funcionar e qualquer afinidade (por exemplo, a origem étnica) vale como laço forte perante uma sociedade em que estão colocados num baixo patamar. E, por isso, a reinserção social e habitacional, não em bloco mas distribuída, tem o efeito (que pode ser temporário, mas não deixa de o ser) da diluição da conivência social e cultural, retirando aos delinquentes aquilo que Mao ensinava aos guerrilheiros (a essencialidade de se moverem entre o “povo” como o peixe se move na água). E, pelo menos, enquanto o pau vai e vem (a adaptação da criminalidade a um novo meio e a uma nova logística), folgam as "costas".

5) Só uma vontade explícita e comprovada do Estado em combater a criminalidade, com a população a apoiar a sua polícia (e para a polícia o merecer, ela tem de nos merecer), regendo-se por critérios exclusivos dos factos criminosos - não se degradando em generalizações de “marcas identitárias do crime” segundo a cor de pele, a etnia ou a condição social – pode retirar o caldo de proliferação dos aproveitadores políticos das “covas das mouras” e dos “arrastões”: sobretudo os skins e os seus irmãos com tatuagens de estrelinhas vermelhas (com que se enfeitam quando lhes falta o caviar para acompanhar o shot).

Está calor mas não desapareço (da conversa). Escuto.
publicado por João Tunes às 16:14
link do post | comentar | favorito
|
4 comentários:
De Joo a 23 de Junho de 2005 às 16:06
É. Tem razão. O sistema parece-me bom (para combater o spam) mas o desenho das letras e números do código a introduzir induz erros. Peço desculpa embora a culpa seja do batráquio. Mas não seja por isso que aqui não apareça. Abraço.


De Miguel Silva a 22 de Junho de 2005 às 17:29
Confesso, envergonhado, que desconhecia que já se fizesse disso por cá. Mas fico contente que já se faça e que resulte.
Não discordamos assim tanto como isso. Talvez em questões de estilo, mais do que de substância. E depois eu tenho uns botões que quando me parece que lhes tocam disparam o espírito opinativo.
Olhe, se discordarmos de alguma coisa é daquelas exasperantes letras que tenho de decifrar para conseguir comentar qualquer coisa no blogue. Ninharias, portanto. (3ª tentativa para este comentário)


De Joo a 22 de Junho de 2005 às 16:24
Afinal, caro Miguel, em que discordamos? Olhe, numa coisa: aquilo que o Miguel defende como "uma nova prática" afinal já existe no terreno. Tenho essa experiência na zona em que vivo. Houve várias integrações de parcelas de bairros problemáticos sem que formassem um "novo gueto". Ao princípio, a reacção da "minha comunidade" foi violenta ("ai que nos vão trazer os ciganos e os pretos do casal Ventoso e Musgueira para aqui!") mas, depois, não só não houve ponta de aumento de delinquência como o assunto saíu fora das conversas. Os "reinseridos" beneficiaram de melhoria de condições, estão praticamente integrados e com padrões de comportamento adaptados. Algumas dificuldades existiram ao princípio mas com os mais pequenos (entre os seis e os dez anos) mas isso deveu-se não a origens étnicas (os mais difíceis passavam em qualquer exame de pureza caucasiana) mas ao facto de provirem de famílias desestruturadas (sobretudo com ausência de pai, de mãe ou de ambos). Mas mesmo esses pequenos problemas iniciais hoje passaram à história. Abraço sem necessidade de certificado de sinceridade.


De Miguel Silva a 22 de Junho de 2005 às 15:56
Por pontos: 2) inteiramente de acordo. Uma coisa não só é conciliável com a outra como até pode ser uma grande ajuda, sendo bem feita. 3)O realojamento dos habitantes de bairros degradados, por si só, não resolve qualquer problema social. É necessário que se saiba de que realojamento se está a falar. Porque se se acaba com os guetos como a Cova da Moura, ou qualquer um dos outros bairros de lata que rodeiam Lisboa, para colocar as pessoas em guetos como os bairros sociais que têm sido construídos até agora, só estaremos a deslocar os problemas para outra área geográfica. 4) Este é um dos problemas mais complexos de resolver nos realojamentos. Estou convencido que o modelo existente (bairros sociais) mostrou todas as suas insuficiências e se encontra totalmente esgotado. Julgo que a alternativa passa por nos afastarmos do conceito de bairro social e por nos concentrarmos num estilo totalmente diferente. Essas alterações podem passar por projectos de dimensão mais modesta (o que, paradoxalmente, sai muito mais caro), diminuindo o número de fogos conjuntos, integrando-os num conjunto urbanístico que não seja já um caso de exclusão social, próximo de redes de sociabilidade mais comuns na sociedade. Este processo implica a dispersão dos realojados e vai quebrar laços existentes, projectos valiosos das comunidades, hábitos de convívio salutares. Se o realojamento se afastar do que tem sido até agora para adoptar uma atitude mais socialmente consciente, estou disposto a admitir que os benefícios, de parte a parte, podem superar os inconvenientes. Outras redes e outros laços crescerão. A questão da legitimidade da actuação da polícia é fundamental para a sua aceitação pela sociedade. Tão fundamental como a necessidade de aquela ser equipada e preparada para combater eficazmente o crime. De outra forma, nem sequer se poderá dizer que vivemos num Estado de direito democrático. A segurança é um dos direitos fundamentais no nosso país.
Dito isto, convém que nos convençamos que não se erradica totalmente o crime de nenhuma sociedade. Previne-se no que há para prevenir e reage-se no que há para reagir. E confia-se no sistema judicial para saber dar seguimento a este trabalho.
Um sincero abraço


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. NO RIO DA TOLERÂNCIA

. LEMBRANDO MARIA LAMAS, MA...

. SOLDADO FUI, OFICIAL TAMB...

. UMA VELHA PAIXÃO PELO “DL...

. LIBERDADE PARA FERRER GAR...

. VIVA A REPÚBLICA !

. FINALMENTE, A HOMENAGEM (...

. COM OS PALANCAS NEGRAS

. POR CESÁRIO VERDE
(esq...

.arquivos

. Setembro 2007

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds