Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

VALE DA (nossa e actual) VERGONHA

espanha_jun_2005 014.jpg

Tinha-a fisgada há muito.

Quando miúdo e jovem, nas inúmeras vezes que acompanhei o meu tio e pai adoptivo (republicano, socialista, laico e barreirense) no conhecimento de Espanha, ele recusou-se sempre a pôr os pés no Vale de los Caídos. Numa altura em que qualquer circuito de viagens incluía o monumento católico-franquista como visita obrigatória, ele passava sempre ao largo, mesmo quando por lá rondávamos nas caminhadas para Aranjuez e El Escorial. Ali é que ele não punha os pés nem acompanhava quem o fizesse. Ficou-me daí um mistério pelo interdito - raio, não há cão nem gato que não vá lá e dali só diga maravilhas … Mas, depois, com um mano-a-mano Ordoñez e Dominguin, no culto obrigatório a Las Ventas, eu perdia qualquer capacidade de reclamar o quer que fosse do programa e … Que viva España! Olé!

Fui tendo umas luzes sobre a obra faraónica que pretendia unir para todo o sempre a Igreja do Vaticano com um dos fascismos mais cruéis e mais sanguinários e que preenchia qualquer programa de excursão papalva organizada por quase todas as paróquias lusas. Mas quando entendi o significado mais fundo do que representava o Vale de los Caídos e a curiosidade histórica me espicaçava, já a democracia voltara a Espanha e o anacronismo católico-herético encerrara ao público.

Reaberto ao público, mantendo-se como lugar de reunião e confraternização de tudo quanto é nazi e fascista por essa Europa fora, retomei o projecto de lá ir meter o nariz para cheirar de perto uma das grandes vergonhas europeias de que só a Igreja Católica (e os nazis) vergonha se recusa a ter. Antes que aquilo vá abaixo ou leve outros caminhos. Faltava-me o Vale de los Caídos para juntar à minha colecção de visitas de vergonha humana a Buchenwald, a Lidice e ao Tarrafal. Com a diferença, que o Vale de los Caídos continua, hoje, a sua obra de morte por vingança fascista celebrando missas.

No último fim-de-semana alargado, lá fui (bem acompanhado como sempre) num programa de andanças pela cercadura de Madrid (e que teve o prémio extra da descoberta fascinante de um pueblo que, só por si, justifica ir a Espanha – chama-se Cinchón e fica nos arredores de Aranjuez).

Claro que as imagens e as vistas são por demais conhecidas e tanto que a topografia e a monumentalidade surpresas não tinha. Celebrava-se missa colectiva dos monges beneditinos a quem Franco confiou a gestão religiosa da Basílica com a contrapartida do enorme Convento que lhes ofereceu para ali se instalarem e marcarem presença da fusão da cruz católica com as setas da Falange. Curiosamente, a maioria dos visitantes (que eram muito poucos, diga-se) falavam português e percebia-se que as nossas paróquias rurais não descansam no turismo religioso. Esperámos o fim da missa e dos cantares com uns monges vestidos de túnica vermelha e outros de túnica preta (aquela mistura de cores lembrou-me, por safadeza, a bandeira anarquista…). Liberta a Basílica de monges, entretanto desaparecidos pela porta lateral da sacristia que os devia levar direitinhos e directamente ao refeitório do imponente Mosteiro, lá deu para espreitar a laje onde, à entrada do altar-mor, está encafuado o José António Primo de Rivera (o chefe do fascismo espanhol) e, contornado o mesmo altar, só Cristo os separando, a outra laje debaixo da qual Francisco Franco repousa do cansaço de tantos crimes e tanto sangue com que sujou as mãos. Nas alas laterais, estão os restos dos outros “vencedores da Cruzada”, assinalando-se que caíram por Deus e por Espanha.

Ali, no recolhimento propiciado pelo silêncio do templo escavado na rocha, li a grande placa que anuncia que a Basílica foi construída e inaugurada por Franco (Caudilho de Espanha pela Graça de Deus) em 1959 e abençoada e elevada à dignidade de Basílica (chamada de Santa Cruz) pelo Papa João XXIII em 1961. Tudo por Deus e por Espanha. E pensei nos vencidos, nos milhares de vencidos prisioneiros e condenados por Franco, em regime prisional de trabalhos forçados, num acto de vingança sádica para com quem defendeu a legalidade democrática perante uns militares golpistas e fascistóides, que durante vinte anos (e muitos morreram em acidentes na obra) cavaram aquele monumento faraónico nas rochas de Cuelgamuros perto de Guadarrama e do Escorial, para eternizar a aliança nacional-catolicista como sustentáculo do regime espanhol. E que perdura, como hino ao fascismo e ao nazismo, mercê sobretudo da sua adopção pela Igreja Católica que continua a afrontar a memória democrática e republicana através da suprema heresia de ali celebrar missas.

Em Vale de los Caídos voltei a lembrar-me da emoção que senti portão dentro de Buchenwald. Mas nada se lhes compara. A vergonha espanhola é mil vezes mais vergonhosa que a vergonha alemã. Os nazis alemães não se lembraram de doar Buchenwald à Igreja em tempo útil antes da derrota. Por exemplo, aos mesmos monges beneditinos que são condóminos do Mosteiro espanhol-franquista perto de Guadarrama. Como fazem em Espanha, talvez em Buchenwald eles se prestassem a dizer missas junto aos crematórios e lhes tratassem da manutenção. E de crematórios sabe aquela Igreja e aqueles monges. Tanto que em Vale de los Caídos, bem perto de Madrid, eles continuam a ajudar e celebrar a redução a cinzas da dignidade espanhola. Hoje. Ainda. Com a democracia regressada a Espanha há trinta anos. Quem aprendeu o Santo Ofício, nunca esquece?

Lembrei-me ali e também do meu Tio Luís e veio-me uma lágrima de ternura e de saudade por esse digno barreirense e meu Mestre e, pela primeira vez (alguma vez tinha que ser), agradeci-lhe, no silêncio interior de que sou capaz, ter-me dado Ordoñez e Dominguin, nunca o Vale de los Caídos, antes de atingir a idade da autonomia da vontade.
publicado por João Tunes às 16:48
link do post | comentar | favorito
|
5 comentários:
De Werewolf a 18 de Junho de 2005 às 18:36
Bravo João aí está toda a razão porque nunca fui, nem tenciono ir ao Vale dos Caídos. Não porque goste de meter a cabeça na areia, mas simplesmente porque antes de o ver já sei o que lá vou encontrar e todo o seu significado fascistóide ainda glorificado, ao contrário dos campos nazis aí glorifica-se o terror nazi-fascista. Ao ler o teu artigo não deixei, eu também, de verter uma lágrima à coerência do teu tio.

Abraço emocionado


De Joo a 18 de Junho de 2005 às 13:21
Caro Evaristo, aquilo nunca poderia ser uma "maravilha do mundo" pela simples razão de que foi feita em regime de trabalho forçado, como castigo político, por vingança para com quem perdeu uma guerra por lutar pela legalidade constitucional. Uma "vergonha do mundo" é e será. Uma correcção a outro comentário: ao contrário do que por vezes se pensa, as Pirâmides não foram construídas por escravos mas sim por "trabalhadores livres" (na liberdade da época, é claro). Cara Helena, Vale dos Caídos não é só um monumento do fascismo que a Democracia continua a tolerar. É também um templo religioso em plena e católica actividade, com a dignidade de Basílica, onde o culto apostólico-romano se celebra, celebrando (só pode) a aliança nacional-catolicista. Quanto ao fotógrafo, em Espanha terá muito para se entreter e trabalhar. Em Portugal, o culto de Salazar sempre foi mais discreto (ele era, ao contrário de Franco, um misógeno) e preferia fazê-lo na Escola e na Igreja.


De Helena a 17 de Junho de 2005 às 13:34
João, aqui em Weimar há um fotógrafo que quer ir a Espanha de propósito fotografar isso. Pretende fazer um livro documentando os vestígios monumentais do fascismo, que a Democracia continua a tolerar. Perguntou-me se em Portugal há algo semelhante. Não me lembro de nada muito monumental - talvez uma sepultura em Santa Comba?


De Bravo Mike a 16 de Junho de 2005 às 21:26
Afinal, a prova como desde a construção das pirâmides, as sociedades não evoluiram tanto como isso. Evolução material sim senhor. Evolução cultural, espiritual/religiosa, não tanto assim.


De Evaristo a 16 de Junho de 2005 às 19:43
O João trouxe-me à memória uma visita efectuada a Madrid em 1968, único país para onde a Pide me autorizou a viajar. E era uma viagem de negócios. Em Madrid, um casal amigo residente na Castelhana, foi mostrar-me os arredores. Depois de El Escurial, fomos ao Vale dos Caídos. Não deu para "sentir" o trabalho dos prisioneiros, mas o meu amigo sempre me dizia: "Es una lastima, que sea un monumento político; si no fuera eso, podria ser una de las Maravillas del Mundo". De facto, ele tinha razão. É uma obra impressionante. Não só a basílica, cavada na rocha, mas tambem a cruz, lá em cima, no imenso penhasco, donde se vislumbra Madrid e arredores. Hoje, imagino a tortura dos prisioneiros, o seu sacrifício físico, a morte de muitos; tudo para erigir a obra e glorificar o ditador. Tres dias depois regressei a Lisboa, e teve uma surpresa: o Botas tinha partido a cabeça, com a queda de uma cadeira, no Forte de Santo António, Estoril. Nunca mais se endireitou!
Um abraço.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. NO RIO DA TOLERÂNCIA

. LEMBRANDO MARIA LAMAS, MA...

. SOLDADO FUI, OFICIAL TAMB...

. UMA VELHA PAIXÃO PELO “DL...

. LIBERDADE PARA FERRER GAR...

. VIVA A REPÚBLICA !

. FINALMENTE, A HOMENAGEM (...

. COM OS PALANCAS NEGRAS

. POR CESÁRIO VERDE
(esq...

.arquivos

. Setembro 2007

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds