Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

PROTO-REQUIEM

cunh.bmp

UM:

Disse que, por respeito, não iria ao funeral de Cunhal. Cumpri. Mas assisti às reportagens em directo pela televisão. Nada de novo ou imprevisto a não ser a idolatria a soltar-se e a romper o jogo ambíguo, combinado e mentiroso desse tremendo culto de personalidade reprimido e cuja eficácia maior foi sempre a encenação da negação programada da sua exteriorização (que força é maior que um amor armazenado dentro do peito?). Tendo perdido Cunhal, o povo comunista é mais livre – está autorizado a gritar “Cunhal amigo”, dizer quanto e tanto o amou e ama e pode transportar-lhe fotografia ou cartaz com o nome, o perfil e os gritos de alma, chamar-lhe mais que Santo, que Camões e que Mestre de Aviz. Agora morto, pode-se dar vivas a Cunhal sem que isso seja desvio ideológico e nem sequer é inconveniência. Estava lá toda a Comissão Política, mais os antigos membros da Comissão Política que não foram expulsos, os companheiros clandestinos, os sucessores de Cunhal também. E todos autorizaram. As emoções saíram à rua no caminho para o Alto de São João. Confirma-se: vale a pena lutar. E Fátima que se cuide.

DOIS:

Aquele povo comovido continua a comover-me como sempre me comoveu. Tirando os putos jotas empoleirados em cocurutos de jazigos como se fossem uma claque de futebol (as claques são irremediavelmente iguais na indecência). Ali estava, continuando a estar, o povo trabalhador que o salazarismo condenou às penas da condição de lupen eterno ou pouco mais. Também intelectuais, uma parte com remorso de não serem operários. O povo que, agora, perdeu um amigo e um guia. Este povo que, vindo do fatalismo, num belo dia, apanhou com a luz da liberdade em cheio nos olhos e, sempre que pode, não se esquece de o agradecer. E agradece a Cunhal como agradece ao MFA porque, bem no fundo, tem a má consciência de achar que comprou poucas rifas para lhe sair tamanha taluda. É o meu povo. Um povo não se escolhe, tem-se. Gosta-se, na medida do possível. E mantenho a convicção de que a maioria daquelas mãos a acenar em despedida pertencem à parte mais sofrida, mais esquecida, mais maltratada, de Nós. Neste sentido, a mais limpa entre nós. Portanto, a que mais respeito. Aquela que eu acho que tem direito pleno às lágrimas em liberdade pela escassez acumulada de tanta falta de liberdade.

TRÊS:

Às tantas, talvez por um regressão a tantos anos passados naquele nós, as divergências cederam e dei comigo a comover-me também, o punho a querer levantar-se e uma lágrima a querer impor-me os seus direitos de correr para o mar da comunhão. Cunhal nunca me foi, nem o poderá vir a ser, indiferente. Cresci e vivi com a sua sombra – tendo-o como guia ou como adversário. E convivi e lutei com aquela mesma maré vermelha dos seus adoradores perenes. De repente, vi-me entre eles de novo metido na despedida ao, segundo as agências noticiosas internacionais, “último estalinista”. Mas lembrei-me – o que me terá valido - que muitos dos comunistas soviéticos (alguns deles, velhos companheiros de Lenine), entre as dezenas de milhar de comunistas que Estaline prendeu, torturou e fuzilou (só porque não queria que Hitler lhe ganhasse o campeonato do número de comunistas eliminados da face da terra), ao serem assassinados às ordens de Estaline com um tiro na nuca, gritavam: ”Viva o Comunismo, Viva Estaline!”. Arrepiei-me e não levantei o punho. Nem gritei “Cunhal Amigo!”. Podia-me dar uma coisa e não quero morrer com esse último grito.

(Na imagem, um outro funeral em tempos idos - Álvaro Cunhal, acompanhado por Raimundo Narciso, nas exéquias do Marechal Tito, Presidente da Jugoslávia e seu líder comunista)
publicado por João Tunes às 14:42
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7 comentários:
De Joo a 19 de Junho de 2005 às 16:13
Uff Sara, custou mais foi. Lá nos entendemos. Abraço.


De sara monteiro a 19 de Junho de 2005 às 13:07
O que eu queria dizer é que gostei tanto do que escreveu que as palavras me parecem poucas para dizer o quanto gostei.


De sara monteiro a 19 de Junho de 2005 às 12:54
Eu é que me exprimi mal. Estas caixas!.... Abraço e obrigada


De Joo a 18 de Junho de 2005 às 23:26
Não me leve a mal, Sara. O que quiz dizer é que não recomendava a ninguém a mesma experiência que está por trás e que eu depreendi do seu "não consigo dizer melhor". Se me enganei, retiro o que disse.


De sara monteiro a 18 de Junho de 2005 às 20:03
Agora não percebi. Lamenta que eu tenha gostado do que escreveu?


De Joo a 18 de Junho de 2005 às 15:53
Lamento. Não desejo a mesma experiência a ninguém. Mas não deixo sem nota a gentileza e a ... companhia.


De sara monteiro a 17 de Junho de 2005 às 01:58
Já tentei hoje de manhã deixar um comentário, não sei porque é que não deu.
Gostei imenso, e não consigo dizer melhor.


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