Sexta-feira, 3 de Junho de 2005

PODER, DITADURA E POLÍTICA, SEGUNDO ANTÓNIO

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5/6/1905:
Não sei onde poderei chegar. Observo as pombas a adejar sobre o campanário e apetece-me voar mais alto que elas.

11/5/1909:
Dei com as Encíclicas do Papa Leão XIII. Folheei a Diuturnum e fiquei entusiasmado. Depois, li-as todas de seguida: Immortale Dei, Libertas, Sapientiae Chistianne, Rerum Novarum… Quando cheguei ao fim, voltei atrás. Merecem uma análise mais cuidada.

18/5/1909:
Encontrei o que procurava. As Encíclicas são claras e apontam os caminhos que os católicos devem seguir no campo da intervenção política. Interiorizei algumas ideias que dificilmente virei a pôr de lado.

18/5/1909:
A liberdade excessiva é um erro! Pensar e poder publicar os próprios pensamentos não é por si um bem de que a sociedade tenha de se felicitar; é antes a fonte de muitos males.

14/10/1909:
Vejo agora claro. Não nasci para padre. Dificilmente me adaptaria à vida eclesiástica. Sinto necessidade de transferir para a acção os princípios em que acredito. Posso servir a Igreja e o País de outra maneira.
Tenho conversado longamente com a minha mãe. Ela concordou comigo.

18/3/1911:
Há que regressar aos valores tradicionais, aos pilares da civilização: a Nação, a Família, a Autoridade, a Hierarquia e, acima de tudo, Deus.
Um Estado nacional deve vigiar a sua imprensa e conduzi-la na direcção dos interesses comuns.

18/3/1916:
Sempre tive dificuldade em conviver. Os outros miúdos achavam-me diferente. Não lhes merecia grande consideração. Tornei-me muito cedo solitário.
Será que terei de carregar às costas, vida fora, as humilhações da mocidade? É por isso que me falta a confiança quando tenho de encarar um grupo de mais de dez seres humanos?

18/10/1916:
Prediz Maquiavel: será feliz aquele que souber acomodar-se com o seu tempo.

18/11/1920:
O chefe não pode mostrar defeitos nem fragilidades. Ninguém deverá saber que sou rancoroso, que sofro de enxaquecas e, muito menos, que atravesso períodos de profundo desânimo em que me é difícil tomar mesmo as decisões mais simples.
Sábio e santo parecerei… Já me custou mais transportar a máscara. Afinal de contas, o hábito faz o monge.

2/8/1923:
Sou um misantropo. Vai-me dominando o espírito essa parte de mim.
Não me sinto político. Nunca o serei. Intelectualmente sou uma pessoa de gelo. É-me difícil partilhar emoções.

2/6/1926:
Fui convidado para Ministro das Finanças. A minha mãe aconselhou-me vivamente a aceitar: “se te pedem, é porque precisam de ti, é porque o País precisa de ti.” Depois de muitas hesitações, acabei por anuir.

21/1/1930:
Ainda não chegou a minha vez… O General Domingos de Oliveira é o novo chefe do Governo.
Pelo menos, juntei às Finanças a pasta das Colónias.

6/2/1930:
De tanto representar, chego a olhar-me ao espelho sem saber se posso confiar na imagem com que me confronto.

2/6/1931:
Falam em eleições. Não vêm que é andar para trás?

30/12/1931:
Sinto o Poder mais próximo; olho em redor e não vejo quem me possa fazer sombra. Sou, cada vez mais, o Chefe de que o País precisa.
Se me encaixo melhor ou pior na moldura, o problema é apenas meu.

28/6/1932:
Alcancei o objectivo que perseguia: mando em Portugal.

29/8/1933:
Foi criada a Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado.

31/7/1941:
Churchil é insuportável!

6/1/1949:
Portugal nasceu à sombra da Igreja e a religião católica foi desde o começo elemento formativo da alma da Nação e traço dominante do carácter do povo português. Nas suas andanças pelo Mundo – a descobrir, a mercadejar, a propagar a fé – impôs-se sem hesitações a conclusão: português, logo católico.

26/3/1949:
O Partido comunista sofreu um golpe duro. Foi apanhada a maior parte da sua direcção, incluindo o cabecilha.
Pedi informações sobre ele. Chama-se Cunhal. Não é um operário: o diabo nunca foi tolo… Formou-se em Direito, em Coimbra, com classificações elevadas. É um homem inteligente e culto. Vive a sua causa como se professasse uma religião, o que o torna perigoso.
Apodrecerá no Forte de Peniche.

18/5/1958:
Delgado há-de pagar-mas!
Cresceu pela minha mão esse americanizado! Peguei nele, amparei-o e fi-lo crescer. Nomeei-o adido militar em Washington. Por lá esteve vários anos. Pretendeu várias prebendas; acabei por o nomear director-geral da Aeronáutica Civil.
Aprendeu a rosnar: “Obviamente, demito-o”!
É mais um que morde a mão que lhe deu o pão.

6/6/1958:
E se ele ganha?
Devo estar tonto! Tenho o Santos Costa bem à mão. Coordena o Exército e a Polícia. Com o ministro do Interior não posso contar. Lá no fundo, é um fraco.
Por mais que isso me custe, os resultados das urnas serão os que eu melhor entender.

16/12/1961:
As nossas províncias ultramarinas podem vir a sangrar. Mas eu sei o que é isto: em parte alguma arriaremos a bandeira!

25/1/1965:
Churchil sentiu sempre uma grande aversão por mim. Não sei porquê.

20/6/1966:
Em política tenho bastantes aliados, muitos adversários e nenhum amigo.
E na vida?
A pergunta é escusada. A verdade é que não me resta vida fora da política.

23/1/1968:
Hão-de dizer muito mal de mim.

2/6/1968:
Preciso urgentemente de um sucessor. Olho em redor e não enxergo ninguém à minha altura.

(de “O Diário de Salazar”, António Trabulo, Ed. Parceria A.M.Pereira)
publicado por João Tunes às 23:56
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1 comentário:
De RN a 4 de Junho de 2005 às 19:17
Também comprei o livro. Mas depois de uma olhadela verifiquei que é, segundo o próprio autor, um "romance". Extractos do Botas e prosa do autor. Talvez o livro não seja mau ou até bom. Mas senti-me enganado. Por mim. E decidi trocá-lo ao tê-lo aqui à mão ;-)


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