Quarta-feira, 28 de Setembro de 2005

APESAR DOS CAMARIGOS, A SOLIDÃO ACOMPANHA O GUERREIRO

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Sempre bem acompanhado por tantos que tão bem me trataram [bolas, eu fui tratado na Guiné, onde andei, pelos meus camarigos (*), como um príncipe da amizade!], camarigos eram todos (tirando uma ou outra dissonância e importante para fazer a diferença de referência), partilhando dores, alegrias e confidências; pessoas que eu hoje revejo e para com quem só tenho o impulso emocionado de uma grande e interminado abraço (mais até que aos meus irmãos biológicos para quem mantenho a distância afectiva da proximidade distante pelo pudor de pensar que os olhos dos nossos pais nos estejam a ver, enquanto a malta da tropa sabia quase tudo de nós que se podia saber, dominava os nossos fortes e fraquezas, sabia o que mais ninguém sabe, nem as nossas mulheres, o que valíamos como homens quando a morte nos queria cheirar o cú ou quando a luxúria de matar nos entrava nas veias).

No entanto, quantas vezes, me afastei mato dentro, procurando a noite africana e os seus sons e cheiros, metendo lágrimas para dentro, olhando o escuro, reduzido a uma solidão infinita, interrogando-me sobre o absurdo de estar ali e não poder ver, no escuro da bolanha, os rostos da minha mãe, da minha irmã, da minha mulher, da minha filha, nem estar a comer um pastel de nata em Belém, ir ao Estádio querer ganhar e saber perder, levar com a luz de Lisboa na cara, apanhar caracóis a caminho do Cabo Espichel ou roubar as amoras que são de todos a caminho da Ericeira ou da Lourinhã, alapar-me com um bife encharcado em molho gorduroso na Portugália e tentar esgotar-lhes as imperiais e obrigá-los a confessarem como suprema humilhação - a esses vaidosos "imperialistas" da Portugália - "caro cliente, acabou-se-nos a cerveja, melhor dizendo, vossa excelência acabou-nos com a cerveja", enfiar o rabo na poltrona do Cinema Londres e mandar o Visconti maravilhar-me com o "Leopardo"e devolver-me a Caludia Cardinale, admirar as maravilhosas bundas e os charmosos seios das alfacinhas subindo o Chiado, deitar-me na minha cama (e a cama de cada um, é sempre uma única), passear os dedos pelos livros lidos e a ler, embirrar com a senhora de bigode que é malcriada como o raio que a parta mas vende fruta melhor que em todos os sítios onde atendem bem, ler o jornal do dia e a horas, meter a chave na nossa porta e entrar no santuário da nossa casa e ter um (o) beijo da mulher que nos ama, amarrar a mão à sua cintura, derreter os dedos nos seus cabelos e levá-la, deixando-nos ir, docemente, para a cama do amor.

Fui sempre um soldado solitário na guerra, salvam-se os camarigos, e que camarigos, a terra seja leve ao "Caco" e ao Amílcar, mas faltou-me sempre a vida que nos faz vivos. Na Guiné eu nunca estive completamente vivo, caso contrário não tinha sido um guerreiro.Por tudo isto, acompanhado, bem acompanhado, sempre estive, ali na guerra, também só.

(*) – Camarigo – Elisão que resolve a preguiça e o preconceito de dizer “camarada e amigo”, tratamento comum entre ex-militares que, mantendo o tratamento castrense de “camarada”, lhe acrescentam a qualidade civil e deferente de “amigo”.
publicado por João Tunes às 16:27
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