Terça-feira, 27 de Setembro de 2005

AOS ANTI-AMERICANOS “UNIVERSITÁRIOS”

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Não é mais que uma faena intelectual a prática contumaz dos – demasiados – que andam a coleccionar posts referindo esta ou aquela crítica de americanos e americanas à América e depois fecharem com uma cópula de raciocínio através do estafado “isto também é anti-americanismo?”. E há quem, não satisfeito com o sofisma de bolso, ainda reforce com “será anti-americanismo primário?”.

Não lhes interessa saber que o valor (simbólico) da América não está na sua (impossível) perfeição. Antes pelo contrário. Na América, quase tudo é criticável e tudo é passível de crítica. Porque é um sistema de iniquidade normalizada e contratualizada que funciona em circuito aberto. Para o interior e o exterior. E que concentra energias e riquezas exactamente pela sua tolerância à crítica e capacidade de viver com as acusações de imperfeição, focando o essencial das energias disponíveis na criação de valor e na supremacia nos mercados. Daí que o património cultural e político da América incorpore uma capacidade plástica de se adaptar e se transformar. Umas vezes, gerando factores de progresso (grande parte do melhor no mundo vem da América). Outras tantas, exibindo os perigos do retorno à selvajaria ou à expressão brutal desta no quotidiano. Obviamente que esta capacidade contraditória tem constituído a América como pólo e garantia de que a vida social corre, pode correr, em duas plataformas paralelas – a da preservação de um regime (e um modelo) de liberdades, de garantias e de força da opinião pública; mais uma dinâmica social em que vigora a desumanidade da luta pela sobrevivência, em que os fracos têm armas desiguais frente aos fortes e, sobretudo, aos muito fortes, incentivando, no entanto, a que os fracos se fortaleçam em vez de se submeterem à mediocridade e rotina da afirmação.

Mais que em qualquer outro País, um americano não deixa de ser considerado “bom americano” por criticar a América. A sua natureza multi-étnica, multi-nacional e multi-cultural anula a possibilidade de se afirmar um estereótipo patriótico que colida com a sua capacidade crítica e transformadora da realidade social, cultural e política. Porque a América, país de emigrantes, sabe que, quando se uniformizasse, morria no dia imediato.

Os anti-americanos não criticam a América. Isso fazem, desde logo, os americanos, refazendo permanentemente a América. O que os anti-americanos não suportam é o facto de a sociedade americana ser, simultaneamente, um sistema aberto e sólido. E, na síntese desta aparente contradição, a América ser, ainda, poderosa. E, face a este paradoxo demolidor, se sentirem impotentes para contrapor alternativa. Factível, é claro. Mostrando, em contraponto, que não suportam sociedades que não encaixem numa opção maniqueísta do Bem ou do Mal, sempre entendido de uma forma absoluta. Total. Assim, se a América não é o Céu, só pode ser Inferno... Gente, afinal, com religiões políticas e culturais de vários caminhos, becos e vielas, mas convergindo num imaginário empobrecido em que o Purgatório não tem espaço.
publicado por João Tunes às 19:09
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2 comentários:
De Helena a 28 de Setembro de 2005 às 10:14
Bem, ele há os WASP, os católicos, os judeus, os grupos gay, os pró-aborto e os anti-aborto, e todos os outros que contribuem para que, dos jogos de poder, resultem novos equilíbrios. Também há os casos de self-made-man, para contrapor aos muitos mais casos de "pobreza hereditária galopante". O que me preocupa é que o desvio a que actualmente assistimos está a destruir as estruturas positivas da sociedade tal como o João as traçou e vai arrastar todo o Ocidente para o abismo. (escrevi sobre isso no Dois Dedos de Conversa)


De Joo Lopes a 27 de Setembro de 2005 às 22:30
Até parece que o João Tunes nunca se apercebeu que por lá e desde o princípio do século XIX é comum o termo WASP (white anglo-saxon protestants) aplicado a uma elite que se distingue pela riqueza, status e detenção do poder a que os Bush (e Kerr) pertencem. Como também parece que não percebeu que o recente discurso maniqueísta do Bem e do Mal é da autoria do actual presidente. Mas entretanto continua com a fantasia da terra de emigrantes...


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