Terça-feira, 21 de Junho de 2005

NA DESCIDA AOS GUETOS

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A propósito de um meu post anterior, o Miguel Silva desafia:

”Como é que se devem (re)definir as políticas de realojamento, para aproveitar o que existe de bom e erradicar o que está mal, sabendo que elas estão a resultar, tal como são postas actualmente em prática, em guetos sociais tão propícios à marginalidade como os bairros de onde se tiram as pessoas? Como é que se devem (re)definir as políticas de realojamento, para aproveitar o que existe de bom e erradicar o que está mal, sabendo que elas estão a resultar, tal como são postas actualmente em prática, em guetos sociais tão propícios à marginalidade como os bairros de onde se tiram as pessoas?”

A pergunta exige talento ciclópico que, para mais com a canícula aí espalhada, está muito acima do meu talento de perspicácia. Podia dizer “não sei, nem tenho de saber, porque sou cidadão sem diploma em teorias e práticas de reinserção social” e assim lhe dava a Taça que, se calhar, era feita do deixar tudo na mesma até aos efeitos do próximo “arrastão” ou da próxima manif neo-nazi e da competente contra-manif dos anti-racistas, ficando-me pelo contra uns e contra outros, talvez contra todos. Mas não é o caso e dou-lhe mais uns trocos:

1) Haverão boas e más práticas de reinserção social de populações situadas em bairros problemáticos. Melhorem-se as melhores, aprenda-se com as más para não as repetir. Como deve ser bom uso político para com qualquer problema social. É que, fora da revolução, não há soluções radicais de redenção. E aí ainda não chegámos. Ou já? Então avance-se no processo de procura por tentativas.

2) As dificuldades nas boas práticas na reinserção social não podem bloquear o afrontamento aos problemas de criminalidade organizada e suportada, pelo menos em santuário de logística, de recrutamento e de paióis, em bunkers onde o Crime está em superioridade relativamente à Lei, ou seja, exógena à Autoridade do Estado e ao seu dever de combater o crime.

3) A configuração dos “bairros do crime”, na sua própria dinâmica da geometria de disposição e na irradiação de habitáculos e de alteração dos meios de circulação, tende, com o tempo, a adaptar-se a uma boa circulação e sobrevivência dos delinquentes (chamemos-lhe, por eufemismo, “NT”) e a estruturar um obstáculo de defesa contra a incursão das forças do “IN” (polícia, no caso). Nestes casos, quando a Autoridade se pretende exercer, das duas uma: ou se consegue intervir com adaptações urbanísticas violentas (como só pode ser a destruição do que seja obstáculo à circulação rápida da polícia) ou, pura e simplesmente, se segrega para locais habitáveis a população que co-habita com o crime e, também pura e simplesmente, se destrói o “quartel das NT”. Eu defendi uma das duas opções mas admito que outra, mais talentosa, valha mais em cima da mesa.

4) A reinserção social e habitacional de populações vivendo com o crime ou quem ele co-habitando tem problemas sociológicos delicados a resolver. Pois tem. Sobretudo, porque além do crime e da logística que acabam por entranhar a cultura desses meios (ai, a dinâmica dos critérios do “bem” e do “mal”…), o conceito de “nós” e dos “outros” adapta-se àquela vivência. Surgem, então, os conceitos do “bom malandro” que, a qualquer momento, pode evoluir para o do “bom delinquente” e nada, quando do exercício da autoridade, é pior que a “bófia”. Não tenho dúvidas que na “cova da moura” e noutros bairros parecidos (ou piores) haja boas e honestíssimas pessoas. Mas tenho-as todas de que, culturalmente pelo menos, um qualquer polícia de giro não seja olhado com mais aversão que o pior dos “bons malandros” seus vizinhos. É o sentido gregário a funcionar e qualquer afinidade (por exemplo, a origem étnica) vale como laço forte perante uma sociedade em que estão colocados num baixo patamar. E, por isso, a reinserção social e habitacional, não em bloco mas distribuída, tem o efeito (que pode ser temporário, mas não deixa de o ser) da diluição da conivência social e cultural, retirando aos delinquentes aquilo que Mao ensinava aos guerrilheiros (a essencialidade de se moverem entre o “povo” como o peixe se move na água). E, pelo menos, enquanto o pau vai e vem (a adaptação da criminalidade a um novo meio e a uma nova logística), folgam as "costas".

5) Só uma vontade explícita e comprovada do Estado em combater a criminalidade, com a população a apoiar a sua polícia (e para a polícia o merecer, ela tem de nos merecer), regendo-se por critérios exclusivos dos factos criminosos - não se degradando em generalizações de “marcas identitárias do crime” segundo a cor de pele, a etnia ou a condição social – pode retirar o caldo de proliferação dos aproveitadores políticos das “covas das mouras” e dos “arrastões”: sobretudo os skins e os seus irmãos com tatuagens de estrelinhas vermelhas (com que se enfeitam quando lhes falta o caviar para acompanhar o shot).

Está calor mas não desapareço (da conversa). Escuto.
publicado por João Tunes às 16:14
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