Terça-feira, 14 de Junho de 2005

RESPEITAR CUNHAL

cunhal[1].jpg

Por respeito, não vou ao velório nem ao funeral.

Devo-lhe isso. A sua dimensão merece a homenagem de não ter um punho caído no meio dos punhos fiéis na devoção.

Devo-me isso. Pelo tempo em que o segui e tremia de orfandade antecipada ao lembrar-me que ele não era eterno. Segui-o e combati-o. Agora, respeitemo-nos, respeitando-nos.

Ele com os seus, eu sem meus. E, no nós, não cabemos os dois, mesmo que cada qual na sua dimensão – a dele a transbordar moldura imperial, a minha em letra sumida de rodapé passageiro como as letrinhas apressadas a anunciar notícias frescas ou velhas a seguir no telejornal.

Não retiro uma letra ao meu combate contra o seu modelo, a sua liderança, a sua teimosia, o seu egocentrismo, a sua autoridade unicista e a sua herança. Muito menos agora que a qualidade de vencido pela vida, somando-se à de vencido político, o banaliza na absolvição com que os portugueses tratam os seus mortos, auto-absolvendo-se da cobardia das dentadas que não lhes deram enquanto vivos.

Amei-o décadas a fio.

Na noite fascista, ele foi o farol do exemplo máximo de combatente feito homem. Não o seguir seria claudicar. Pior, era colaborar. E para lutar, mudar, respirar, só ele tinha direito a lugar no centro do altar. Cunhal era o Santo em cujo manto de aço se afiava a espada do combate contra o fascismo, a opressão, o obscurantismo da sotaina, terço e sacristia, a exploração desenfreada, a falta do ar da liberdade, a porrada por discordar e a caneta partida para não se escreverem sonhos de um qualquer amor. Concordo com os que dizem que foram Salazar e Cerejeira que nos ofereceram Cunhal. Para mais, Cunhal ou estava preso, ou clandestino ou exilado, distante sempre. Isso mais a têmpera única, fizeram o mito.

Na revolução, ele foi guia na bebedeira revolucionária de querer empurrar a história a pontapé. Porque era o mais sóbrio de todos. Este abstémio a servir-nos copos de três em rodadas permanentes transformou o seu mito numa forma de carisma feita culto, distância e sabedoria. Além de Santo, passou a Sábio. Inacessível? Sempre.

(Estive com ele várias vezes. Duas vezes, face to face, em que me senti palerma, seco de palavras e de capacidade de pensar, esmagado por aquele olhar de expectativa e só disponível para argumento grande e em ambas suei a bom suar na pressa de me libertar do magnetismo da sua companhia que me reduzia à mais ínfima insignificância. Numa outra vez, no meio de um auditório gordo de malta quente de fervor, ousei falar para discordar do seu discurso, sentindo o que valem centenas de olhos – menos os dele - virados contra o peito pela obscenidade da ousadia profana. Muitíssimas vezes fomos companheiros de balcão na Sede para entreter o estômago para a reunião da noite e confirmei como se fazia silêncio absoluto para lhe retribuir a distância no culto maníaco pela lonjura iluminada, percebendo que, afinal, chamar-lhe camarada era apenas exercício ritual daquele ofício entre desiguais.)

Fui seu adversário político noutras décadas. Desde que entendi que ele não era Santo nem Sábio, apenas o Maquinista de um projecto imutável e cruel. E percebi que, estar onde ele estava, com ele, só fazia sentido para lhe dar o Poder que ele usaria, com a mesma determinação com que combateu o fascismo e a contra-revolução, mas agora para nos retirar, primeiro, a liberdade e depois implantar outra desigualdade, restringindo a fraternidade a um círculo de aristocracia dos devotos mais próximos. Deixou de me fazer sentido servir Cunhal para voltar a Caxias. Com Cunhal ou sem Cunhal, porque a sua herança legou uma versão menor. A última coisa que lhe devo, a herança que me deixou, foi ter-me conciliado com alguém que eu detestei décadas a fio – Mário Soares. Mas, definitivamente, fiquei com o altar vazio de ícones, curtindo a solidão de perda do nós. Paciência, não se pode ter tudo.

Respeito a partilha de emoções. Mesmo se colectivas (ou colectivizadas). Até quando são encenadas. Desculpo até alguma histeria no excesso de dor para conferir grandeza emprestada e disfarçada de partilha. Por causa disso é que não vou ao velório nem ao funeral. Por respeito.
publicado por João Tunes às 17:57
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De cu a 15 de Junho de 2005 às 02:55
Parabéns João!
Pela Coragem,
pela firmeza,
pela clareza
e pela demonstração de respeito
aqui explícita
de forma
tão coerente
e tão consequente.


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